"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo de cores tão intensas... lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da voz fascinante de Petra Magoni... que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

31 de jul de 2010

Foto do post... Gustave de Jonghe




Florada

Tudo em meu corpo adoece.
Tudo em meu corpo adoece quando choro.
Tudo em meu corpo chora.
Choro em todos os meus cantos.
Choram cantos e todos
choram todos os cantos.
Meus cantos são todos os cantos que choram.
Tenho muitos cantos
e eles choram.
Me alargo em tudo
e tudo me alaga.
Me alaga o rio quando choro.
O rio me alaga e me alarga.
Chora um rio em mim.
Um rio é um canto meu que chora.
Meu avesso é um canto meu que floresce.
Meu avesso é um canto meu que chora e floresce.
Quero florescer como choro que brota
e como rio que alaga quando me deito.

Adriana Monteiro de Barros

30 de jul de 2010

Foto do post... Zhao Kailin




Guardados

Como quando se tira um vestido velho do baú
Um vestido que não é para usar, só para olhar.
Só para ver como ele era...
Depois a gente dobra de novo e guarda.
Mas não se cogita em jogar fora ou dar.
Acho que saudade é isso

Lygia Fagundes Telles

29 de jul de 2010

Foto do post... Danielle Richard




Minha coleção de melhores memórias são as mais antigas
do tempo em que eu era menina pequena
e queria ser menina grande

Hoje dentro da menina que é grande
existe uma vontade enorme
de ser menina pequena
mas o tempo não volta

E eu fico só
com minha coleção de saudades

Lou Witt

28 de jul de 2010

Foto do post... Roman Frances




Chamas: eu ouço aqui no meu lugar
silencioso porque nada freme
na secura indelével da solidão.
De novo se chamares
gaudinarei à espera do pedido
para que siga o teu apelo em mim;
então hei-de envolver este destino
que levará a ti.
E só então me voltarei. Atenta:
é muito pouco ouvir palavras a fluírem
sem que saiba porquê o chamamento.
Se me queres entrega-me o segredo
da súbita vontade e roga-me que vá
até onde encontrar-te. Com enlevo.

António Salvado

27 de jul de 2010

Foto do post...Liu Yuanshou




Abandonei-me ao vento

Abandonei-me ao vento. Quem sou, pode
explicar-te o vento que me invade.
E já perdi o nome ao som da morte,
ganhei um outro livre, que me sabe

quando me levantar e o corpo solte
o meu despojo vão. Em toda parte
o vento há-de soprar, onde não cabe
a morte mais. A morte a morte explode.

E os seus fragmentos caem na viração
e o que ela foi na pedra se consome.
Abandonei-me ao vento como um grão.

Sem a opressão dos ganhos, utensílio,
abandonei-me. E assim fiquei conciso,
eterno. Mas o amor guardou meu nome.

Carlos Nejar

26 de jul de 2010

Foto do post...Vladimir Gusev




A primeira vez que entrei num poema não fechei a porta.
O poema apanhou tudo. Nunca mais pude sair.

Vasco Gato