"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo de cores tão intensas... lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da voz fascinante de Petra Magoni... que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

31 de out de 2010

Foto do post... (desconheço)




Aromas

Deve existir uma outra
noite
onde caibamos todos.

Inocentemente felizes
a comer laranjas
e a discutir problemas de aromas
de flores.

Francisco Duarte Mangas

30 de out de 2010

Foto do post... (desconheço)




Abstrato

eu nunca beijei um poema.

no entanto ele está aqui
roçando leve minha
boca

nas horas dos
mais
doídos
silêncios

Mariana Botelho

29 de out de 2010

Foto do post... (desconheço)




Rubro

na sagrada mesa a taça de rubro vinho
que sorverei num momento
o sabor em tormento teu
o fervor, lamento meu
na sagrada mesa
a taça que
sorverei
momento
teu.
o fervor,
lamento
meu.

Mirze Souza

28 de out de 2010

Foto do post... Andrzej Malinowski




Modo de amar

não fales das tempestades
que colhes por debaixo dos
meus frágeis vestidos escuros
(não contes como sou feita de escuros)
nem da fúria com que os arrancas de mim

não fales do meu anel
de como envolve teu dedo
(não contes que dedo)
nem o que eu faço com ele
pra te ouvir chorar

Silvana Guimarães

27 de out de 2010

Foto do post... Guan Zeju




Lembrança da flauta tocada no Terraço de Fênix

No porta-incenso as cinzas já estão frias.
E a colcha púrpura é um mar revolto sobre a minha cama.
Eu me levanto sem o mínimo desejo de me pentear,
O toucador está coberto de pó.
As cortinas fechadas, banhadas pelo sol que já vai alto,
Têm medo de reavivar a minha dor
Tantas coisas quero dizer, mas aqui fico, muda!
Emagreço, não pelo vinho
Nem pela tristeza do outono.

Acabou-se, tudo acabou,
Dessa vez ele se foi para sempre.
Mil vezes, dez mil vezes pedi,
Mas não consegui impedir que partisse.
Foste para Wuling, longe de meus carinhos.
O pavilhão perdido na neblina.
Só água sob minha janela testemunha minha tristeza,
E cada vez que me volto,
Na direção do caminho que por onde partiste,
Aumenta minha tristeza

Li Qingzhao
Tradução: Sérgio Capparelli e Wu Di

26 de out de 2010

Foto do post... Sergey Marshennikov




Pés mais delicados que os seus
deslizam fora do cobertor.
Sobre o carpete uma saia
recupera seu fôlego;
o perfume que você evita
finge que é déjà vu.

Minhas mãos, acredito,
não são de outra pessoa.

Richard Price
Tradução: Virna Teixeira

25 de out de 2010

Foto do post... Roberto Liang




Breve

Seré muy breve:
te quiero, y esto duele.

Seré muy breve:
te extraño, y esto duele.

Seré muy breve:
te he perdido, y esto duele.

Nacho Vegas

24 de out de 2010

Foto do post... Hugues Merle






De repente
Num vórtice de tristeza
Todo o seu ser
Rodopiou
De alma vazia perguntou
Onde estou?
Cega, surda e muda
Sabia que estava


Helena Loureiro

23 de out de 2010

Foto do post... Zinaida Serebriakova




Canto de cisne

Olhei o lago do tempo
como um cisne solitário
a esperar a companheira
a madrugada reflectia um ritmo errante
em sua mortalha de neblina
senti a presença abismal da lembrança
que me trouxe o último rosto
em que me perdi de amor
cantei para morrer em glória
cuspindo efêmeros suspiros
sonhando reflexos de ilusão.

Valéria Duque

22 de out de 2010

Foto do post... Odilede Schwilgue




Nós

essa coisa
que há em nós

busca que não cessa
palavra que não sacia

esperança que a gente tece
teimosamente
todos os dias

essa coisa
que há em nós

bálsamo para tantas dores
que a gente acostumou
e nem mais sente

força estranha
que há em nós
e nos leva pelas ruas
em busca dessas coisas todas
que na madrugada
desatam sobre nós

Ademir Antonio Bacca

21 de out de 2010

Foto do post... Zinaida Serebriakova




Desfolhada…

Sem ti
sou apenas este vento
que investe contra
as árvores
e as desfolha longamente
muito antes do Outono.

Gonçalo Salvado

20 de out de 2010

Foto do post... (desconheço)



Ninguém me vê

Às vezes escondo-me no meu corpo e ninguém me vê.
As pessoas falam comigo e não notam que eu não falo com elas.
Posso até dizer algumas palavras,
posso até exprimir-me num longo discurso,
mas a verdade é que não falo com elas.
Estou escondido algures no meio do meu corpo.

Gonçalo M. Tavares

19 de out de 2010

Foto do post... Alexandre Jacques Chantron




Feliz era a nudez. Vinha diurna
de dentro de si mesma. Porque o dia
ressumbrava recente desde a sua
novidade de pasmo. E de pupila
apta à evidência. E, por isso, arguta,
sem deduzir-se duma argúcia activa.
Onde fossem seus passos a espessura
entregava o seu fervor de enigma
para depois, se recolher. Ter junta
e pronta a ordem de nova epifania.
Era a nudez da inteligência. Abrupta
e, ao mesmo tempo, de precisão tão íntima
que até os recantos justos da penumbra
recrutavam a luz da perspectiva.

Fernando Echavarria

18 de out de 2010

Foto do post... (desconheço)




Vestido

El mejor vestido para mi cuerpo
es tu cuerpo desnudo.
El mejor vestido para tu cuerpo
es mi cuerpo desnudo.

Vestido así
no tengo ganas de desnudarme
nunca.

Jorge Riechman

17 de out de 2010

Foto do post... Ron Monsma




... sempre serei a solitária flor...

...
O que anseio é só meu, só no meu ser existe,
e por isso me fiz muito triste, assim triste,
no sonho de afeição...
...
sem poder encontrar, dentro de estranha vida,
um amor, outro amor, para o meu louco amor!...

Gilka Machado

16 de out de 2010

Foto do post... Jeremy Lipking




Vênus em Escorpião

Não. Não há nenhuma emoção.
Apenas uma folha seca sob a blusa.
E no lugar do sexo uma concha oca.

Prazeres calcinados
Paixão cauterizada
como uterina ferida.

Nenhuma emoção. Nenhuma voz
a sacudir o corpo em fogo ou lágrimas
ternura ou espasmos.

Apenas a esperança muda
de que ninguém pise na folha seca
sob a blusa.

Luíza Mendes Furia

15 de out de 2010

Foto do post... Guan Zeju




Sim, por favor

Uma mão quente.
Uma casa quente.
Um pullover quente
para cobrir meus pensamentos gelados.
Um corpo quente
para cobrir o meu corpo.
Uma alma quente
para cobrir a minha alma.
Uma vida quente
para cobrir a minha vida gelada.

Sonia Åkesson

14 de out de 2010

Foto do post... (desconheço)




Junto de ti descobri, de repente, a alegria que trazia escondida numa cave no coração. Deixei de ter caves e sótãos dentro de mim, corredores escuros onde o vento do medo uivava. Nunca mais fui assombrada pelas roucas marés da infância. E a minha alma tem agora amplas janelas, viradas a sul, com vista para o lago dos teus olhos.

Inês Pedrosa

13 de out de 2010

Foto do post... Pierre Narcisse Guerin




Bailarinas esvoaçantes

Soltei o verbo
Cansei de emudecer segredos
de soterrar meus medos
Cortei o pulso
abri a veia dos desejos
dei vazão aos meus impulsos
Não quero mais o amor em lampejos
Quero a vida escancarada e nua
esparramada como a luz da lua
no solo arenoso dos sentimentos
Quero viver intensos momentos
Levitar ao som melodioso dos meus pensamentos
numa liberdade arrojada
por bailarinas esvoaçantes, adornada

Úrsula Avner

12 de out de 2010

Foto do post... (desconheço)




Às vezes sopra um vento
assim sem que se espere
e varre nossos caminhos.
Nunca gostei de ventos fortes
mas eles gostam de mim
e sempre me acompanham.

Quando me refaço de um
outro vem
e me desfaz novamente.

Lou Witt

11 de out de 2010

Foto do post... (desconheço)




Eu só de luz me sustento
de corpos, rostos irradiantes.
Chega de coisas baças.
Mas adiante.

Apenas quero das horas
o instante
a cada instante.

Helga Moreira

10 de out de 2010

Foto do post... Francesco Hayez




Finisterrae

Aqui começa o fim
Feito de vento.

Enlouqueceu a bússola
Do tempo.

Naufragam as certezas
Do infinito.

Aqui se acaba o mapa
Nasce o mito.

Aqui começa a morte
Em naves findas.

Aqui começa o medo.
Como um grito.

Renata Pallottini

9 de out de 2010

Foto do post... (desconheço)




Efeitos

As doces meninas de outrora
amanheceram
vestiram os vestidos novos
pintaram as unhas de vermelho
por um instante resplandeceram
depois baixaram as cabecinhas louras
e envelheceram como as flores

Horácio Dídimo

8 de out de 2010

Foto do post... Sergey Marshennikov




Auto-retrato

Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.

Natália Correia

7 de out de 2010

Foto do post... Eduardo Naranjo




Das duas de mim

Das duas de mim só percebeste
A louca
A voz de íntima nudez
O grito surdo da fêmea.

Das duas de mim só percebeste
A outra
A dos ventos soltos
Cabaças no ventre
E um demônio
Nos cabelos

Das duas de mim só percebeste
A sombra
A embriaguez do vinho
O brilho da palavra
O sonho

Agora que um mapa estranho
Traçou na face os caminhos da santa
O sonho apareceu despido
Ainda voltas
De vez em quando
Com as palavras da louca!

Paula Tavares

6 de out de 2010

Foto do post... Serge Marshennikov




Pássara

Desperta-me leve rumor de asas. Talvez seja apenas
um novo voo da ave que me habita, a irromper a madrugada
de onde venho, para ganhar o azul do azul!
E a pássara liberta do fundo do meu corpo-cárcere ao
alçar predestinado voo, alcançará o espaço adivinhado para
encharcar-se de vida-luz, sol-amor-nascente.
Sobrevoará a névoa da cidade, os rios em que deságuo
minhas fontes, irá além dos meus limites verticais, para
encontrar-se, serena ave-ávida, pousar em outra praia horizontal
e calma, de areias, ventos, dunas e poesia: encontro com a face
de minha alma!

Maria Lucia Nascimento Capozzi

5 de out de 2010

Foto do post... Bryce Cameron




As vestes

Enfrentei furacões com meus vestidos claros.
Quem me vê por aí com esses vestidos estampados não imagina as grades, os muros o chão de cimento que eles tornaram leves. Não se imagina a escuridão que esses vestidos cobrem e dentro da escuridão os incêndios que retornam cada vez que me dispo cada vez que a nudez me liberta dos seus laços.

Iracema Macedo

4 de out de 2010

Foto do post... Zhang Yan Yuan




Coração composê

Vista-se
De amor por mim
Só assim,
Eu me visto de você...

Enise

3 de out de 2010

Foto do post... Cristián de la Fuente




Quem me dera voltar…

Quem me dera voltar
às cores perdidas
nas tardes sem tempo
no mar deslumbrado
com seivas inquietas
das ervas que brotam
nas vidas corridas
nos medos
na alma a sangrar

Quem me dera voltar
ao silêncio de cantar

Constança Lucas

2 de out de 2010

Foto do post... (desconheço)




Rota de colisão

Digo para o meu desejo
esquecer o rumo do teu corpo
te largar numa esquina feminina
perder o endereço das tuas mãos.
Ando amnesiada pelos sóis de agosto
distribuindo risos postais
mostrando que não te quero
... mas te busco
nas bocas que beijam avidamente
como se a vertente
de incontroláveis prazeres
atraísse a velocidade dos ônibus metropolitanos
aos becos escuros dos subúrbios.

Elíude Viana

1 de out de 2010

Foto do post... Seignac Guillaume




Tudo o que eu tinha pra te dizer...
Ficou amarrado no rabo do vento...

Se perdeu no tempo... que enfim passou!

Ficou preso na garganta... arranhando
minha fala insana... de línguas estranhas.

(Falas mansas... se decompondo... na solidão da sala...
de tristezas brancas... tantas!)

Se teceu na teia de silêncios das aranhas... virou arabescos...
Enevoados violáceos de incensos... tão intensos!

Ficou ribombando no peito... eco de um coração se debatendo...
Se moldando num casulo de medos.

Ah!... Tanto que eu tinha pra te dizer!!!
Antes... durante e depois de te perder...

MarciaDoM