"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo de cores tão intensas... lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da voz fascinante de Petra Magoni... que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

31 de dez de 2011

Foto do post... Sophia Loren




Olha. Vem ouvir(me). Estava perdida num campo de girassois. Para sempre. Ouve(me). Não sei como me encontraste. Mas vieste. A realidade. Deixou de ser importante. E tu vieste. Num campo de girassois. Quem anda perdido. Raramente se encontra. Demasiadas distracções. Ou assim. Quem anda perdido. Raramente encontra. Quer dizer. Precisa que o encontrem. De tanto (não) andar à procura. Ou assim. E tu chegaste. Não sei de onde vieste. Deixou de ser importante. Tudo. Qualquer coisa. Desapareceu. Porque quando vieste. Para me encontrar. Devolveste-me o que eu desconhecia. De mim. Esta vontade irracional. De me fechar numa caixa. Ou assim. Só. Para que tomes. Conta. De mim.

Elisa

30 de dez de 2011

Foto do post... Tomihiro Kono




O tempo esquece...

Recordo vagamente a tua silhueta
recortada no contraluz,
acenando um vago adeus
num dia de vagas penumbras.

O tempo esquece...

Recordo vagamente o teu sorriso,
plasmado num vago crepúsculo
de cores vagamente esmaecidas.

O tempo esquece...

Recordo vagamente o teu corpo,
vagamente moldado em mim.

O tempo esquece...

Mas a saudade que me fustiga
os dias, o ser, o vazio de ti,
essa o tempo nunca esquece...

Rita Pais

29 de dez de 2011

Foto do post... Natalie Portman




O cisne

Este cansaço de passar como que atado
a coisas que ainda não foram feitas,
parece o caminho incriado do cisne.

E o morrer, esse desapegar-se
do fundo em que diariamente estamos,
seu tímido abandonar-se às águas

que mansamente o acolhem e por serem
felizes e já passadas, onda a onda,
sob seu corpo se retraem;

então, firme e tranqüilo,
com realeza e crescente segurança,
abandona-se o cisne ao deslizar.

Rainer Maria Rilke
(trad. de Dora Ferreira da Silva)

28 de dez de 2011

Foto do post... Frederike Wetzels




Do fim dos meus dias
Vê-se um tecto
Branco
E inerte
Que me dá silêncio
E mais silêncio
Tanto que me escorre
Dos olhos
Por já não me caber
No peito

Do fim dos meus dias
Vê-se o deserto
Que me sobra
Dos gestos
- Como quem morre
Nos restos
De um leito
Seco

Solidão triste
A que me chega
Das entranhas
Deste vazio
Onde se me cai
A vontade,
Abatida,
De palavras
Em riste

- Campo tardio
De armas sepultadas

- Lume profundo
De chamas inúteis
Apagadas

Virgínia do Carmo

27 de dez de 2011

Foto do post... (desconheço)




Amor

As árvores do outono sobrepõem-se sob o alpendre esculpido
inumeráveis nuvens floridas escoltam o sapo de jade
alguns fios de perfume nocturno atravessam a cortina bordada
ela espera escondida
a porta meio aberta
meio fechada

Zhang Kejiu
(trad. de Albano Martins)

26 de dez de 2011

Foto do post... Sergey Karpenko




Podemos ser como bonecas de corda
e olhar para o mundo como olhos de vidro
e jazer durante anos entre rendas e lantejoulas
o corpo recheado de palha
dentro de uma caixa de feltro,
e a cada toque de luxúria
gritar sem nenhuma razão
Ah, que feliz sou!

Forugh Farrokhzad

25 de dez de 2011

Foto do post... Lily Cole




Intervalo

Às vezes,
Todas as dores de uma vida inteira
Gritam...

Às vezes,
Nas mãos, os gestos de perdão
Petrificam...

Às vezes,
As canções dos anjos
Emudecem...

Às vezes,
Os silêncios , numa praia derradeira
Desaguam...

Às vezes...
Só às vezes...

Vera Muniz

24 de dez de 2011

Foto do post... (desconheço)




Todos os meus castelos de ar derreteram como a neve,
todos os meus sonhos correram como água,
de tudo quanto amei só me resta um céu azul
e umas quantas estrelas lívidas.
O vento sopra, suave, entre as árvores.
O vazio repousa. A água está em silêncio.
O velho abeto, alerta, pensa
na nuvem branca que beijou em sonhos.

Edith Södergran

23 de dez de 2011

Foto do post... Ellen von Unwerth




Liberdade para ver e ouvir o que é,
em vez de o que deveria ser, foi ou será.

Liberdade de dizer o que se sente ou se pensa,
em vez de o que se deveria sentir ou pensar.

Liberdade de sentir o que se sente,
em vez de o que se precisa sentir.

Liberdade de perguntar o que se quer saber,
em vez de sempre esperar por permissão.

Liberdade de correr riscos por conta própria,
em vez de escolher apenas a “segurança” de não virar o barco.

Virginia Satir

22 de dez de 2011

Foto do post... Eugenio Recuenco




Este é o meu número:
telefonem-me.
Este é o lugar
onde passo as tardes:
encontrem-me.

Ou não me telefonem
nem me encontrem
mas pensem em mim
enquanto estiverem a viver.

Pedro Mexia

21 de dez de 2011

Foto do post... Marilyn Monroe




Da branca luz do sol (Alquimia)

Alva alma, vestida de branco
sem ser pura, se teceu de sol,
bravura em cores, não só ternura...

Mesclada em texturas
vibrantes, quentes,
se lambuzou de flores
imersa em dores, amores.

Esmaecida, pálida, fria,
se escondeu da alegria,
na dança da vida envolvida.
E roda, mesmo ferida,
toda energia gira veloz,
vestida de branco-alquimia.

Envolta em luz, poesia,
Adentra a mistura de cores
Encontra na ruptura,
o branco, a paz...
Tudo o que queria?

Gaiô

20 de dez de 2011

Foto do post... Mia Wasikowska




Quando ficas sozinho, és espelho
do que foste:
uma manhã
contemplada da janela encostada
da varanda; alguns passos
harmoniosos que não seguiste
para não derramar teu gozo;
umas quantas palavras
que te modificaram mais que o tempo;
um olhar que se afogou
como luz em tuas veias;
uma viagem que não querias
terminar nunca; tua alma ausente
do que te esperava
ao ficares sozinho.

Ángel Crespo
(trad. de José Bento)

19 de dez de 2011

Foto do post... Louise Brooks




simples assim


eu queria uma palavra
apenas uma

e meus olhos te mostrariam
dois sóis

[um em cada pupila]

por trás do inevitável arco-íris
eu te daria um sorriso

só isso
e já me clareava o dia

Adrianna Coelho

17 de dez de 2011

Foto do post... Catherine Deneuve




Só ela compreendia o som dos meus silêncios. Temia às vezes que o tempo hostil fugisse enquanto conversávamos. Depois disso esvaiu-se-me a memória e vejo-me agora a falar dela contigo, entre espirais de fumo que anuviam a nossa comoção. Esta é a parte de mim que encontro mudada: o sentimento, em si, informe, neste agora que é apenas saudade.

Eugénio Montale

16 de dez de 2011

Foto do post... Howard Schatz




Tempos

Avesso ao calendário traço
no espaço o tempo onde me distraio:

sei do amanhecer que me acorda
do meio dia que me alimenta
da tarde propícia à tormenta
da noite em que me desoriento

revisito o tempo na capa
da magia e me refugio
em mim mesmo

mantenho o som do rádio
e me delicio em estáticas: olhos
fechados
imagino a cena na tela
despegada.

Pedro Du Bois

15 de dez de 2011

Foto do post... Aghata Ruiz de La Prada




Elegia

Entrou na sala e ficou em pé tocando piano
Sua mão pequena batia no teclado duramente.
Lembro que estava de vermelho
Lembro que tinha nas tranças finas uma fita preta
Lembro que era tarde
E entrava pelas janelas abertas o vento do mar.
Não lembro se tinha flores perto dela
Mas nascia um perfume do seu corpo.

Que amor o meu!

Augusto Frederico Schmidt

14 de dez de 2011

Foto do post... Jamari Lior




Flor de Ir Embora

Flor de ir embora
É uma flor que se alimenta do que a gente chora
Rompe a terra decidida
Flor do meu desejo de correr o mundo afora
Flor de sentimento
Amadurecendo aos poucos a minha partida
Quando a flor abrir inteira
Muda a minha vida
Esperei o tempo certo
E lá vou eu
E lá vou eu
Flor de ir embora, eu vou
Agora esse mundo é meu

Fátima Guedes

13 de dez de 2011

Foto do post... Aino Kannisto




Que a noite seja perfeita...

Que a noite seja perfeita se formos dignos dela
Nenhuma pedra branca nos indicava o caminho
Onde as fraquezas vencidas acabavam de morrer

Íamos para além dos mais longínquos horizontes
Com os nossos ombros e com as nossas mãos
E esse entusiasmo tamanho
Até ao brilho das abóbadas insondáveis
E essa fome de permanecer
E essa sede de sofrer
Sufocando-nos a garganta
Como mil enforcamentos

Partilhámos as nossas sombras
Mais do que as nossas luzes
Mostrámo-nos
Mais gloriosos com as nossas feridas
Do que com as vitórias esparsas
E as manhãs felizes

Construímos muro a muro
A negra muralha de nossas solidões
E essas cadeias de ferro prendendo o nosso andar
Forjadas com o mais duro metal

Que perfeita seja a noite em que nos afundamos
Destruímos toda a felicidade e toda a ternura
E os nossos gritos não terão
Doravante mais do que o trémulo eco
Das poeiras perdidas
Nos abismos do nada.

Alain Grandbois
(trad. de Ruy Ventura)

11 de dez de 2011

Foto do post... Clive Arrowsmith




A canção do tédio

Anda uma estrela pelo céu,
sozinha, arrastando um véu
de viúva.

- É a chuva.

Rola um soluço leve no ar,
bem longo no seu rolar,
bem lento.

- É o vento.

Perpassa o passo oco de algum
fantasma, quieto como um
segredo.

- É o medo.

Batem à porta. Abro. Quem é?
Uma alta sombra, de pé,
se eleva.

- É a treva.

Mas, desde então, alguém está
comigo. É inútil. Não há
remédio.

- É o tédio.

Guilherme de Almeida

10 de dez de 2011

Foto do post... Shirley Temple




Ventos do passado

É tua filha, não é? Reconheci-a
pela estrela fugaz que há nos seus olhos,
a cabeça inclinada e a maneira
tão tua, de fitar cheia de assombro.
É tua filha, não é? Intuíram-no
– de tão fundo! –
certos ventos calados que dormiam
sob as águas sossegadas, no poço
dos tempos perdidos, onde guardo
as folhas que tombaram
dos salgueiros remotos.
Ostenta luz na fronte
– a tua luz. – E o gesto melancólico.
O pescoço frágil como era o teu
e no cabelo os mesmos
pássaros loucos.
Guarda um vento do passado entre os dedos,
e no rosto…
a tua assinatura
escrita num sangue
que desconheço.

Torcuato Luca de Tena

9 de dez de 2011

Foto do post... Odd Andersen




As formas do branco

Caminho pela neve
e o mundo principia neste branco.
Tenho a verdade, sonho breve,
branco retido no branco.

Girassol amanhecido longe,
a verdade apareceu-me nesse branco.
Tempo devorado como carne, corpo ferido,
vermelho sobre o branco.

Os pássaros nascem nas nuvens,
azul distante.
Tinha a verdade, perdi-a:
branco escondido no branco.

Carlos Felipe Moisés

7 de dez de 2011

Foto do post... (desconheço)




O meu desejo de ti
é forte para contê-lo -
assim ninguém vai culpar-me
se à noite for ter contigo
pela estrada dos meus sonhos.

Ono No Komachi
(trad. Luísa Freire)

6 de dez de 2011

Foto do post... Jamari Lior




A cor do grito

Por falta de culpados,
culpei o tempo.
Certamente ele ainda não veio,
por culpa da chuva, do vento.
Ainda virá,
não há de tardar.

E quando a terra secou
outro pretexto arrumei.
A rua, o movimento,
talvez congestionamento.
Chegará a qualquer momento.

A hora passou,
o mundo aquietou.
Ele não veio.
A chuva, o vento, o movimento,
não são cúmplices do meu tormento.

Que mundo esquisito!
A lucidez cinza eu evito.
O silêncio é frio,
cor de granito.

Suplico...
Qual é a cor do grito?

Rosa Pena

5 de dez de 2011

Foto do post... Licio Passon




Desamarra devagar os últimos laços, como quem se despe, sem pressa e, deixa deslizar na superfície da pele essa roupa desgastada dos dias. Cansou de ser outono nos olhos. Mergulhou e emergiu de novo nome. Batismo de profeta. O movimento. A mudança. Na tormenta, sempre se pode andar sobre as águas. Ou mergulhar nelas, bem fundo.

Cecilia Braga

4 de dez de 2011

Foto do post... Elizabeth Taylor




Hieróglifo

Na pedra da alma
gravo a cifra
do que sinto:
sou a um só tempo
o alvo
o caçador
e o arco tenso,
estendido.

Micheliny Verunschk

3 de dez de 2011

Foto do post... Anna Kondakova




olhar poente

quando meu olhar ausente
se põe
espichado sobre o poente

sua presença
se faz em ondas intermitentes
uma lágrima furtiva

cai disfarçadamente
faço uma prece
pungente:

"frees me father
this pain before
recalcitrant and unforgiving"

e fecho as cortinas da - nova - mente!

Canto da Boca

2 de dez de 2011

Foto do post... Gregory Crewdson




Mulher à janela

Está afundada na sua janela contemplando as brasas do anoitecer, ainda possível. Tudo se consumou no seu destino, inalterável a partir de agora,tal como o mar num quadro, e no entanto o céu continua a passar com as suas angélicas procissões. Nenhum pato selvagem interrompeu o voo para oeste; lá longe continuarão a florescer as ameixoeiras brancas, como se nada fosse, e alguém há-de erguer a sua casa algures sobre a poeira e o fumo de outra casa.

Inóspito este mundo.
Áspero este lugar de nunca mais.

Por uma fissura do coração sai um pássaro negro e é noite -ou será um deus caído agonizando sobre o mundo?-, mas ninguém o viu, ninguém sabe, nem aquele que acredita que dos laços desfeitos nascem asas belíssimas, os nós instantâneos do acaso, a aventura imortal, embora cada pegada encerre com um selo todos os paraísos prometidos.

Ela ouviu em cada passo a condenação. Agora não é mais do que uma mulher imóvel, alheada, na sua janela, a simples arquitectura da sombra asilada na sua pele, como se alguma vez uma fronteira, um muro, um silêncio, um adeus, tivessem sido o verdadeiro limite, o abismo final entre uma mulher e um homem.

Olga Orozco

1 de dez de 2011

Foto do post... Robert Wasinger




Dilacerado

Retraída
Descomposta
Tiraram todos os sinais
Por onde eu aprendera ler a vida
Sons que nem sei mais ouvir
gritos que já não ouso dar
Silêncio absoluto
até na hora de parir
Roubaram meu grito
Minha dor silenciosamente me consome
Na aceitação
de não ser mais
o que eu descobrira.

Dafne Stamato

30 de nov de 2011

Foto do post... Tiago Hoisel




Isso, vai, anda com os ombros sempre bem erguidos. Faz a borboleta ter vontade de pousar. E você nem desconfia que agora mesmo existe alguém de olho em coisas que nem você sabe. Alguém que sonha um dia te contar sobre seus próprios segredos - esses capazes de deixar qualquer um com toda vontade de pousar no seu ombro. E te adorar com todos os dentes.

Gabito Nunes

27 de nov de 2011

Foto do post... Claudia Schiffer




Estar vivo
é abrir uma gaveta
na cozinha,
tirar uma faca de cabo preto,
descascar uma laranja.

Viver é outra coisa:
deixas a gaveta fechada
e arrancas tudo
com unhas e dentes,
o sabor amargo da casca
de tão doce,
não o esqueces.

Luís Filipe Parrado

25 de nov de 2011

Foto do post... Marta Ferreira




Constatação

O problema não é a vida sem ti. Já tive uma vida assim e eram dias que faziam todo o sentido. Difícil é uma vida depois de ti. O depois não acaba nunca.

Sofia

24 de nov de 2011

Foto do post... Gregory Crewdson




Desperdício

Passamos a maior parte do tempo
na vã tentativa de recolher
os despojos do que fomos

mas nem juntamos os cacos do presente
nem resgatamos o soluço da véspera.

Newton de Lucca

23 de nov de 2011

Foto do post... Marilyn Monroe




Às vezes paro à porta
com o olhar perdido e habituado ao silêncio,
há mais desertos ainda, dias
e morte noutros olhos.
Com a garganta habituada à sede,
com os pés às feridas,
saio para a rua
e já não há umbrais.

Ando um dia, passo outro,
acabo uma semana de vidros partidos
e tosse mais velha.
Hoje parece que sempre
choveu sobre mim,
e não me importa
se a chuva já não se parece ao esquecimento
e apenas deixa charcos, paredes mais sujas
e fuligem e tristeza nos olhos de rímel,
ainda tenho sede
e não me importa
voltar às coisas más e aos velhos tugúrios
à procura de algo que não encontro nem recordo,
que costuma principiar por um encontro,
talvez por outra palavra
e corre o perigo de crispar-se
até a forma da folha da faca.

Às vezes tudo é tão estranho
que não basta continuar a andar.

Alfonso Barrocal
(trad. de Joaquim Manuel Magalhães)

22 de nov de 2011

Foto do post... Jessica Tandy




Vê como a boca é triste
quando sorri a distância;

quando o inverno das asas
já atravessa os espaços e
cava na terra a sombra de uma
ausência.

Prova difícil é crermos no azul.

Luísa Freire

21 de nov de 2011

Foto do post... Joan Allen




... sonho com uma velhice silenciosa e melancólica, a mão esquecida sobre a cabeça de um cão. o olhar preso ao cíclico fascínio das águas e dos jardins. sonho com uma velhice onde a solidão não doa. solidão superpovoada de amigos, de silhuetas andróginas para o amor, de rostos belos como sensações de sorrisos, de mãos que aprenderam a falar.

Al Berto

20 de nov de 2011

Foto do post... Gregory Crewdson




Os dias cinzentos

Os dias cinzentos. Eles vêm, eles insinuam-se com o tempo. Deixas de vislumbrar os matizes que desaparecem como ténues, cintilantes flocos na memória. Ficar sentado e pensar de repente. Que está mais cinzento, que queres libertar-te, mas continuas sentado, em completo silêncio, imaginas-te dentro do cinzento porque há nele uma leveza, porque ele é algo de fortuito que se ajusta bem aos dias, e quando queres sair dele, estás deitado indefeso no meio do caminho, como um animalzinho, destrutível, mesmo com o mais ligeiro toque.

Aasne Linnesta

19 de nov de 2011

Foto do post... Jamari Lior




A passagem

Neste regaço chuva seca
Descanso minha alma
Sorumbática erva-de-orvalho
Á sombra de tua porta...
Onde já nem sequer me aguardas
Em sorrisos de girassol…

Ah!
Quimera que se foi, já-era
como os soluços terríveis do vento
deste vento que já não balança

Aqui havia… flores...

Flores que espalhavam olhos límpidos
Pendentes sobre violetas…

Sucumbiram!

Ah... nocturno Chopin
De aromas perturbantes
Traçados em partituras de jasmim
Roseiral... que já não dás rosas dantes
Já não és rendas de gramíneas pelos montes
Onde os meus sentidos se poisavam
Nos lençóis de pálpebras que desciam
Que te faziam ouvir passos…

... escuta amor... abre a porta. Sou Eu!
... já não há porta… e já não bato Eu!

Assiria

18 de nov de 2011

Foto do post... LJ Gray




Poema para uma namorada que inventei

Hoje quero
celebrar tua ausência
o teu silêncio.

exaltar a tua solidão
e com ela
partilhar
o doce aroma de pitanga madura
dos teus beijos ausentes.

Como se fosses um sonho,
Um poema sem fundamento
Ou apenas imagem que criei.

Manuel C. Amor

16 de nov de 2011

Foto do post... Tiago Hoisel




Despojamento

Eliminei o excesso de paisagem
simplifiquei toda a decoração
retirei quadros flores ornamentos
apaguei velas copos guardanapos
e a música

Bani a inutilidade do discurso

Na mesa de madeira
nua
apenas dois pratos
brancos
sem talheres

O banquete será tua presença

Ivo Barroso

15 de nov de 2011

Foto do post... Mariana Ximenes




Violoncelo

Chorai, arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo…

De que esvoaçam,
Brancos, os arcos…
Por baixo passam,
Se despedaçam
No rio, os barcos.

Fundas, soluçam
Caudais de choro
Que ruínas, (ouçam)!
Se debruçam,
Que sorvedouro!…

Trêmulos astros…
Soidões lacustres…
- Lemes e mastros.
E os alabastros
Dos balaústres!

Urnas quebradas!
Blocos de gelo…
- Chorai, arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.

Camilo Pessanha

14 de nov de 2011

Foto do post... Ekaterina Grigorieva




Descanso

Quando durmo, nada sinto,
e em mal e bem indistinto
nada posso conhecer:
não sei aquilo que sou,
nem o que fui, nem se vou
saber o que devo ser.

Pierre de Ronsard
(trad. Vasco Graça Moura)

12 de nov de 2011

Foto do post... Loreena Kennitt




e porque hoje é uma daquelas noites...

... quero perder os sentidos e ondular a minha alma na melodia que me transporta para os confins do universo e me deixa lá, suspensa, iluminando a escuridão do meu silêncio.
Nesta atmosfera onde o místico me envolve, permanecerei, sem pressa de voltar...

OA.S

11 de nov de 2011

Foto do post... Alice Lemarin




Aguarelo de laranjas a manhã

Espremo um gomo entre a língua e o palato.
Como se pintasse frescos na cúpula,
aguarelo a manhã pelo pensamento incolor.
Misturo mais azul, abro o brilho,
contrasto as cores que já vejo.

Posso viver só de laranjas
e do ar que respiro,
com vista para o mar,
aqui, onde escolhi ficar.

Isabel Solano

10 de nov de 2011

Foto do post... Fred Perrot




Por vezes

Sinto-me como um olho d'agua...
explodindo ávido por correr

... e noutras

sinto-me como um velho rio
que corre sossegado
contemplando suas margens...

Wanda Monteiro

9 de nov de 2011

Foto do post... Dmitry Bocharov




A gente tem que morrer tantas vezes durante a vida,
que eu já tô ficando craque em ressurreição.
Bobeou eu tô morrendo.
Na minha extrema pulsão, na minha extrema-unção,
na minha extrema menção de acordar viva todo dia.
Há dores que, sinceramente, eu não resolvo.
Sinceramente sucumbo.

Elisa Lucinda

6 de nov de 2011

Foto do post... Saharoza




flor de sal

não chames por mim
levo nos olhos queimados
o fim dos desertos

não te posso escutar
na branca solidão dos dias
porque até no meu silêncio
te matei

não chames por mim
levo nos passos
o veneno da Lua

a espuma do tempo
sai-me das mãos vazias
e apaga o trilho
por onde as vozes
podem chegar

não chames por mim
levo o peito tão rasgado
de ausência!

e no meu coração
só há
uma vermelha flor de sal
que já ninguém
pode tocar

gil t. sousa

5 de nov de 2011

Foto do post... Selina de Maeyer




Esse lado de mim que vive
Desejando partir
É minha metade forasteira,
Selvagem e traiçoeira...

Chega ansiando ir embora,
Parte pensando em voltar,
E amarga uma impaciência que não controla...

Esse lado de mim que passeia pela vida
Sorrindo diante do intocável,
Brilhando olhos de lobo,
Voz mansa quebrando o silêncio,
É a parte de mim que não sabe o que quer,
Minha metade cansada,
Frágil e sensível...

Deseja ser guiada por um sonho,
Brincar na memória de alguém,
Ser parte eterna de uma alma
Que já aprendeu a amar...

Débora Böttcher

4 de nov de 2011

Foto do post... (desconheço)




Acontece na vida de toda a gente. De repente, a porta que se fechou entreabre-se, a grade que se acabou de descer volta a erguer-se, o não definitivo já não é senão um talvez, o mundo transfigura-se, um sangue novo corre-nos nas veias. É a esperança. Pena suspensa. O veredicto de um juiz, de um médico, de um cônsul fica adiado. Uma voz anuncia-nos que nem tudo está perdido. Trémulos, com lágrimas de gratidão nos olhos, passamos para o aposento seguinte, onde nos pedem para esperarmos, antes de nos lançarem no abismo.

Nina Berberova

3 de nov de 2011

Foto do post... Frederike Wetzels




Só escuro e frio...

Portas que se abrem para o vazio,
Para a escuridão de uma existência sem o calor,
O aconchego de um carinho.
Só escuro e frio, esse espaço, que sentes
Ao atravessar as portas do tempo…

Nem orquídeas, nem flores de cerejeira
Nem o fogo na lareira… ardendo lento!

Dentro, apenas o passado, o efémero…
Gravado nas pedras nuas… com lágrimas
Minhas, e porventura, tuas...

BlueShell

31 de out de 2011

Foto do post... michaelrecycles




O meu corpo, se bem que leve, é um peso que arrasto sem forças para tanto, um peso que me dói, além de me pesar e de me coagir a arrastá-lo. Desejaria não o sentir, como não sinto o ar que respiro, embora esteja envolvida nele e com ele. Queria deslocar o corpo sem esforço, tal como desloco fluidos, cheiros, poeira, quando caminho de qualquer lado para qualquer lado. Queria disponibilizar o corpo, guardá-lo bem fechado numa gaveta secreta e, quando precisasse, ia lá buscá-lo, trazia-o comigo e dizia-lhe: agora quero sentir-te, mostra-me lá como é, dá-me apetites e desejos que eu possa facilmente satisfazer, dá um prazer à alma que te habita... Eu desejaria enrolar-me no meu corpo, como se eu fosse seda e ele puro espírito.

Fernanda Botelho