"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo de cores tão intensas... lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da voz fascinante de Petra Magoni... que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

30 de abr de 2011

Foto do post... Lidya Alfonsi




Vivo sobre um fio…

Vivo sobre um fio de aranha esticado entre dois mundos paralelos.
Sou esse fio nesse lar de mentira passo os dias entre o presente e o futuro condicional do verbo maior de todos. O verbo que a morte não conjuga. Eu conjugo. O verbo que me quer fazer um filho sem pecado, de todos os meus filhos o mais amado. O filho sonho. Vivo este fio mentira caverna sombra esta lama esta luta esta lâmina aos pulsos da coragem tatuada tudo por um grito em que me evada sem a dor que me resta em cada cicatriz. Levo a minha fauna para a terra dos sonhos. Onde não se coma poesia não posso ser feliz.

Ana Rita Calmeiro

29 de abr de 2011

Foto do post... Marilyn Monroe




O que é certo é que gostei de ti.
O resto não: se exististe,
e se assim foi, qual a cor dos olhos, ora verdes
ora cinzentos, deles levantou-se uma vez
um bando de andorinhas. Quais. As rápidas,
as que não andam, as que se amam no ar.
Como foi. Ficaste doente
ou coisa assim, levaram-te, muito se passou,
acho que ia ter outro filho e esqueci-me de ti
até ouvir-te, esta noite, a horas impossíveis,
vem comigo, é tempo. Larga tudo e sai,
espero por ti ao pé da cancela.
Mas cheguei lá e o trinco
estava solto, batia ao vento
contra o poste, fechei-o, voltei para trás,
a pensar em ti, que estiveste lá,
sabe-o Deus, que abriste a cancela,
que gostei de ti e também
que a porta não encaixava bem.

Eva Gerlach

28 de abr de 2011

Foto do post... Audrey Hepburn




Á você

Quando me ligou não pude atender.
Estava no quintal jogando fora um pouco de mim.
Se achar, passe ao largo. Não pretendo ser encontrada. Mas se insistir em me descobrir, devolva-me a terra. Quero eu mesma me desfazer. Atinar deve fazer parte de mim. Portanto. Novamente peço. Se passar por mim, não aporte.

Maria Odila

27 de abr de 2011

Foto do post... Carla Bruni




o silêncio tem vozes sem nome
que não possuem sossego até serem ouvidas

a casa que habitamos ecoa memórias
uma porta entreabre-se para o fundo de um grito
como se por um momento tudo regressasse à sua morte

os contornos da terra hesitam em sua posição
um lume mínimo espanta-nos os dedos
e é uma força subtil

algo dentro e fora da casa nos convida à totalidade
porém o fogo reclama ainda o nosso corpo

um passo mais e a solidão será real

Vasco Gato

26 de abr de 2011

Foto do post... Katia Chausheva




... e a lembrança do frasco de perfume esquecido a aumentar, de chinelos conjugais no corredor, de outra escova de dentes no copo, e de repente uma vozinha de pavio de círio

- Você sabe o que é ter saudades de uma escova de dentes, amigo?

Por acaso sei, enfim julgo que sei mas calo-me. Uma escova de dentes cor de rosa, com pêlos brancos um bocadinho desgrenhados, uma escova de dentes linda a iluminar-me uma zona escondida da alma.

António Lobo Antunes

25 de abr de 2011

Foto do post... Robert Wasinger




Morro todos os dias

O dia de morrer vive aberto dentro de mim.
Copio das rosas a resignação
Com as hortênsias ensaio tons de roxo que tecerão minha manta
Busco nas árvores a dignidade dos fortes quando tombam
Na alvura dos lírios recolho o branco que há de cobrir minhas faces
Ouço sabiás para escolher a melodia dos prantos
Leio os gemidos das matas agonizando em chamas
Cato semelhanças!
Quero morrer...
com a serenidade de um gerânio...
com a leveza de uma avenca...
com a elegância de um outono...
Apenas um dó... bemol!
Sem sustos
Sem espantos
Sem escândalos
Quero cerrar as pálpebras
com o apaziguamento contido de uma dorme-maria.
Por isto... treino mortes todos os dias!

Ana Merij

24 de abr de 2011

Foto do post... Gregory Crewdson




Aceito a ordem das coisas, a geometria imposta do quarto? Os objectos no seu lugar de sempre, a distância exacta da cadeira à mesa, do meiple à janela? O sono do tapete? O universo diário do quarto alugado, as molduras que cercam, resguardam naturezas mortas, paisagens imóveis? Aceito a minha vida? Ou mexo no candeeiro, desvio-o alguns centímetros na mesa, altero as relações das coisas, afinal tão frágeis que o simples desvio dum objecto pode romper o equilíbrio?
Pego no telefone e grito ao primeiro desconhecido: ouves-me? Ou deixo tudo tal como está, medido, quieto no rigor do quarto, e eu hesitante entre o soalho e o tecto? Desloco o cinzeiro sabendo que posso matar mandarins, provocar cataclismos, fracturas, amores, eclipses, sonhos, com a ponta dum dedo? Ou apago a lâmpada eléctrica e entro no mesmo torpor que as flores do tapete, a fruta dos quadros, o frio, o bolor, no chão, nas paredes, o poema na mesa, a mesa no espaço do quarto comprado mês a mês? Confundo o aluguer e o tempo, deixo-me ser em cada milímetro, em cada segundo, do quarto, da vida, o outro objecto chamado inquilino? Ou desencadeio a insurreição mudando de sítio o meiple, a cadeira, mudando-me a mim?

Carlos de Oliveira

23 de abr de 2011

Foto do post... (desconheço)




Carta de um náufrago

Com o consentimento da neve
caminharei devagar.

Alguém haverá à espera junto do fogo
e eu, que estarei cega pelo frio,
farei paragens breves,
sacudirei o guarda-chuva e começarei de novo.

O único segredo é não sentir-se
imensamente cheio de verdades.
Não aceitar nunca os convites
que o nevoeiro
sugere ao fazer ninho com os seus disfarces
de paisagem feliz, de grandes sonhos.

Alguém haverá que diga, perdeu-se,
alguém sairá a procurar-me,
e levará o calor de uma garrafa
onde poderei mandar-te esta mensagem.

Ana Merino

22 de abr de 2011

Foto do post... Haleh Bryan




Despertar

... e é acordar
Assim pela manhã,

Procuro-te
Tacteando o espaço
A meu lado

Abro os olhos
E apenas
O vazio...

No meu coração
Tomo refúgio
E me abraço
Para te tocar...

Como doí
Não estares...

Fazes-me falta
Meu anjo
Meu amor
Meu alento.

José Freitas Dinis

21 de abr de 2011

Foto do post... Antony Hopkins e Debra Winger



Obsidiana

Ao romper do dia, apercebeu-se do que a rodeava, do corpo junto do seu; ele dormia, ou pretendia que ela o imaginasse. Obsidiana aconchegou-o no conforto das roupas. Quando acordou, estava só. Estendeu o braço para o lugar vazio e voltou a afundar-se num sono profundo, como se tivesse caído num abismo. Mais tarde, muito tempo depois, anos talvez, afirmaria para consigo deveria ter morrido naquela noite; não a orientaria, nesse aspecto, o negativismo, muito pelo contrário: sublimado o desejo pela ternura, poderia ter evitado a paixão para sempre.

Filomena Cabral

20 de abr de 2011

Foto do post... Katia Chausheva




Poema com bula

ando poetando
somente para quebrar o silêncio
da minha garganta arranhada
: os ais dos meus mais

cicatrizações líricas
que se curam com
o verbo em estado febril
: meu escalda-pés

Beth Almeida

19 de abr de 2011

Foto do post... Grace Kelly




Sonata para Piano e Violoncelo

Oiço a mesma música que então
escutara a se lado.
Aqueles olhos
já não estão hoje a olhar-me, e não sinto
no peito o amor.
Mas alguma coisa viva
desse tempo regressa e os acordes
daquela música fazem-me sofrer.

Eloy Sánchez Rosillo

18 de abr de 2011

Foto do post... Nicole Kidman




Se olhasses para mim verias nos meus olhos
a lancinante expressão da solidão
e a esperança sem qualquer indecisão
de que é possível o teu nome ser maior
que o céu que me vela o silêncio da noite.

Amar-te desde sempre é mais que uma forma de estar vivo
e dar expressão à divindade que trago comigo
desde que atravessei a fronteira
que entre o mar e o mar estabelece
a luz mais verdadeira.

O mais sequer é tempestade que neste coração sangra,
ou dúvida subtil ou estremecimento,
sentindo o alvoroço em que te sinto
apenas peço que sejas tu o assombro
e me devolvas enfim a harmonia.

Amadeu Baptista

17 de abr de 2011

Foto do post... Grace Kelly




Horizontes

Não sei se foi a cor do dia
ou, o barulho de passos
no chão de tábua corrida,
recordando os sons da infância
ou, se foi o gosto da comida
com sabor de almoço de domingo.
Não sei...

Só sei que a saudade,
que sei bem de quem,
brotou funda no peito
e encheu meus olhos d'água.
Senti vontade
de ser um riacho,
correndo livremente
por essas terras
até encontrar
o horizonte.

Maria Alice Estrella

16 de abr de 2011

Foto do post... Mildred Pierce




(...)
E as palavras que eu invento
Na tristeza do momento
de te ver partir agora
são palavras, são carinhos
são os restos dos espinhos
do nosso amor que demora
E a cidade entristecida
dorme à noite recolhida
porque a lembrança sorri
Como quem espera em ternura
que um dia à nossa procura
possas voltar sempre aqui.

(desconheço autoria)

15 de abr de 2011

Foto do post... Patricia Vannucci




Ao som dos violinos

Chora violino intransigente
o arco te acarinha os tendões
as cordas de minhas emoções
tocam contigo, indulgentes

Toca lá, meu arguto amigo,
solta tua voz tão afinada
vai buscar-me a doce amada
trazei-mo-la nas notas contigo

Afastai-me do peito a agonia
da saudade que me dilacera
fazei-me real esta utopia

Afastai de mim atroz quimera
que devora-me noite após dia
esta ânsia que em mim se encerra.

Jorge Linhaça

14 de abr de 2011

Foto do post... Christopher Reeve e Jane Seymour




Almas expostas contemplam-se!
Almas gêmeas completam-se!
Nada lhes falta, tudo lhes sobra.
Amor siamês acopla pensamentos,
Sentimentos, vontades, virtudes,
Desejos, valores.
Soberana perfeição,
Fruto da Arte Criadora,
O encontro se faz perfeito,
A vida se faz beleza,
O amor se faz eterno.

Gilson Froelich

13 de abr de 2011

Foto do post... (desconheço)




A eternidade em que se vive

(...) Como poderia eu ter imaginação para te reconstituir na sólida delicadeza da tua fragilidade? (...) O amor e a morte inserem-se um no outro, deves saber. Mas eu sobrevivi e isso é uma condenação. Penso-te e o teu esplendor renasce-me no meu pensar e a minha idade retrai-se quando me apareces. E a eternidade em que se vive, mesmo se a velhice é real, restabelece-me igual a ti que nunca envelheceste. E não me perguntes porque te escrevo se tudo é em vão. Mas há o meu desejo de te fixar na palavra escrita que te diz, para ficares aí com o milagre que puder. É Primavera e tudo é nítido no seu ser real. (...)

Vergílio Ferreira

12 de abr de 2011

Foto do post... Haleh Bryan




Longe e acabado

Não tenho medo de sofás vazios
ficam na sala da minha lembrança
como adereços de uma vida acabada
Desde que te esqueci revive a esperança

Agora tenho outro à porta em certos dias
Deixo-o entrar levo-o para a minha cama
e passo-lhe a mão pelos cabelos
como tu me fazias

Gosto de ti como de um quadro de um poema
que o tempo torna nossos pessoais
Fazes parte de mim e tudo o mais
já está esquecido. Longe e acabado como tu.

Ulla Hahn

11 de abr de 2011

Foto do post... Carice van Bhouten




unmade bed

um homem de uma mulher pode ocupar toda a casa
sem nunca o saber. em todas as coisas que uma casa
pode ter
uma mulher pode refazer a cada dia
o seu homem
e deitá-lo
sentá-lo
aninhá-lo entre as sertãs e os pratos da loiça de viana
entre as linhas de coser e
as cortininhas de chita que o tempo
embolorece. há um homem
a dormir nesta cama
muito depois de o homem
partir.

Marta Caldeira

10 de abr de 2011

Foto do post... Haleh Bryan




Retrato inquebrável

Reencontro-te sempre nos destroços de mim!
Sorris-me e dizes-me ao ouvido: Até breve!... depois soltas uma gargalhada profunda e contagiante e sais a correr num vestido branco que esvoaça até se perder de vista... é engraçado... só me lembro de te ouvir "gargalhar" quando ainda éramos crianças e "ninguém estava morto" (por dentro... por fora)

Dizem que quem morre jovem permanece jovem eternamente...
Guardo cá dentro o teu retrato... emoldurado no que deixaste em mim!

sophiarui

9 de abr de 2011

Foto do post... Helen Mirren




Um mais um será sempre igual a dois. Um menos um, zero.
A morte é matemática. A vida, não. A vida é delicada e inexata.
É pra quem sabe brincar de poesia.

Cris Guerra

8 de abr de 2011

Foto do post... İpek Yaylacıoğlu




Contra o Mundo

Peito aberto enfrento o mundo.
Abafo o grito,
combato a raiva,
desvio da amargura.
No ato, nada me derruba.
Logo, desabo na solidão de meus pensamentos.

Débora Linden Hübner

7 de abr de 2011

Foto do post... (desconheço)




Encham a casa de rosas
Mas de rosas naturais
Dessas que trepam viçosas
Pelos muros dos quintais

Rosas de todas as cores
Que me tragam alegria
Que têm todas as flores
Abertas à luz do dia

E que sejam macias
Para as ter ao pé de mim
Mas não sejam rosas frias
Como essas de cetim

E seja tudo surpresa
Como se fosse a sonhar
Ponham, ponham flores na mesa
Que hoje não quero chorar.

Fernando Tavares Rodrigues

6 de abr de 2011

Foto do post... (desconheço)




Soletrando a solidão

A dor que sinto não é de vazios

Dentro de mim,
vozes - ternuras
mãos - aquecidas
palavras - ecoantes
promessas - vidas

Dentro de mim,
um rio
uma pedra
uma trilha
uma rua
uma estrela
um apito
um trem
uma aldeia

A dor que sinto é de cheios

Dentro de mim... moradas
Carrego multidões alvoroçadas

A dor que sinto... não é de retalhos

Padeço de inteiros!

Ana Merij

5 de abr de 2011

Foto do post... Elizabeth Taylor




Tua ausência cala o mundo, o mar, os ventos.
Tua ausência desaba silenciosamente sobre os
meus dias, soterrando meu outono...
Ela magoa demais o meu sossego.
Tua ausência é essa substância densa
Tua ausência é tão presente que é pessoa...
E me abraça.

Marla de Queiroz

4 de abr de 2011

Foto do post... Helen Mirren




Coração sem imagens

Deito fora as imagens,
Sem ti para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em toda a parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.

Raul de Carvalho

3 de abr de 2011

Foto do post... Uma Thurman




hoje...

hoje alguma coisa se perdeu
como a chuva que a terra bebeu
solene silêncio
do velho relógio parado
lençóis sobre móveis imaginários

hoje entrou o meio-dia e o fim de tarde
o tempo esgarçou as horas
amordaçou palavras
enterrou estrelas no fundo do mar

Andrea Augusto

2 de abr de 2011

Foto do post... Carice van Bhouten




19:40

o relógio da estação marcava
dezanove e quarenta

um alto e entroncado homem
sorria de um dos lados da linha

todos os dias

do outro sorria uma mulher
com os seus dezanove
e quarenta anos

a reter, os brincos da mulher
estridentes de silêncio

e as botas dele
invulgarmente mudas

a dilecção dela
eram homens pontuais

a dele mulheres
sorridentes ao silêncio

dia dezanove de um mês
invernoso
do ano de quarenta

de um lado da linha
não havia vislumbre
de mulher ou homem

e do outro
também não

Nuno Travanca

1 de abr de 2011

Foto do post... Natalie Portman




O medo

Surgiu
Por detrás
Da nuvem escura
Que tapou a lua.
Escorregou
Sobre a planície,
Negro,
Envolto
Em longas chamas.
Era meu.
Pertencia-me.
Era o medo.

Maria Amélia Neto