"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo de cores tão intensas... lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da voz fascinante de Petra Magoni... que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

31 de mai de 2011

Foto do post... Lise Sarfati




Antecipação da Manhã

Não sei por que os pássaros
agora cantam a uma da
madrugada.

Antecipam-se.

E, no entanto, as pedras
da rua continuam
cinzentas.

Se houvesse viva alma
com provável silhueta
medindo a longínqua
montanha [mundo adentro,
mundo afora; não importava
onde ou quando], eu saberia a
antecipação das
horas.

Mas o cinza das pedras
[e essas pedras cinza],
e a ausência inclemente
[e indefinivelmente presente]
desse corpo-e-alma-que-se-fazem
-Um [ausente], e que a noite não
divisa [nem sua marca deixa sobre
o cinza], não me permite entender
a beleza ou razão da antecipação da
música.

Fecho a janela.

Deduzo que tenha ido,
talvez, dormir tarde
demais.

Ou, então, é a
Manhã que se
apressa.

Marcelo Novaes

29 de mai de 2011

Foto do post... (desconheço)




Retrato

No velho relicário
a imagem retrata,
transpira verdades:
se aberto,
dois
lado a lado.
Fechado,
um
num abraço.
O amor se faz reflexo,
no velho relicário.
Antiga imagem informando
que o peito que o carrega
abriga, também, eterno amor.

Clau Assi

28 de mai de 2011

Foto do post... (desconheço)




porque hoje me apetece...

recordar, sentir, chorar...
o tempo é curto demais, o mundo é imenso
quando o dia acaba e a noite começa
a realidade vai e o sonho desperta

desejo fechar-me em meu pensar...

Cat Stevens

27 de mai de 2011

Foto do post... Anneè Olofsson




as pessoas morrem nunca partem de nós, eu separei-te
de mim, cortei-te-me. em cinemas imaginários filmados por
mãos iluminadas usei teu corpo. coloquei o deserto do teu
coração rente à minha boca. lavaram-me o desespero as
lágrimas que choravas no escuro. parti-te.
estou a fazer-te luto. desejei-te tanto. discuti-te tanto
contigo. agora percebo que te atirei demais contra tantos poemas.
agora encontramo-nos. eu tenho de colar-te os restos
para conseguir ver-te para além do que trago molhado nos
olhos, acabou o passeio no meu jardim interior, pleno de estatuas
quebradas, as noites acabo sempre assim, abraçado ao rosto
restos da pedra, agradecendo-lhe as imagens.

Pedro Sena-Lino

26 de mai de 2011

Foto do post... Dita von Teese




Dá-me um lume

Todos sabemos acender um fósforo
a quem nos pede lume.

Talvez fosse uma conversa
possível até ao fim. Mas o mais vulgar
é ficarmos onde estamos
com o fósforo aceso à beira do rosto

— e antes de haver tempo
a chama queima os dedos.

Carlos Poças Falcão

25 de mai de 2011

Foto do post... Sophia Loren




A fonte

Secou... era uma fonte...
É uma fonte... mas não é mais uma fonte...
Já não tem água... secou!
Como ela...
Mulher... era uma mulher...
É uma mulher... mas não é mais uma mulher...
Já não tem amor... perdeu-se
Algures no tempo,
Nas desventuras,
No passado,
Na solidão,
No crer em vão!

BlueShell

24 de mai de 2011

Foto do post... Marilyn Monroe




Inverno no meu corpo

O inverno desliza
no corpo que espera.

Quanto frio ainda haverá,
antes que ele chegue
e de novo as rosas desabrochem
e com elas a cor pinte meu rosto?

Desde que se foi o meu amado
não há almíscar,
o perfume desertou a vida,
o vinho não sabe a prazer.
já não me acolhe, a noite,
é escuridão sem voz .

O vento não se oculta no deserto,
nem fala aos meus quadris
nenhuma dança.

Desde que se foi o meu amado
o inverno não se cansa de ser eu.

Silvia Chueire

21 de mai de 2011

Foto do post... Christopher Reeve & Jane Seymour




Noite

A mão do amor vestiu-nos,
durante a noite, com uma túnica de abraços
que só a mão da aurora
veio por fim rasgar.

Ibn Khafâja
(trad. David Mourão-Ferreira)

18 de mai de 2011

Foto do post... Erwin Olaf




Primeiro esqueci o cheiro
E ao acordar já não senti o sabor da sua boca

Depois o corpo tornou-se memória
Em vez de impressão
Esfumado, perdido, inglório

O seu rosto desaparecia
Ficavam quase nem os contornos

E no fim sentia só uma tristeza
De promessa feita e não tornada

Miguel Soares

17 de mai de 2011

Foto do post... (desconheço)




Vazio

Eu fechei a porta
Eu tranquei o quarto
Encontrei uma maneira tranquila de não viver
Eu venho pra cá
Para sentir solidão em meio à multidão
Eu me matei
Ninguém percebeu

Dafne Stamato

16 de mai de 2011

Foto do post... Liv Tyler




o amor

fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor. eu sei exactamente o que é o amor. o amor é saber que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer. o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos. o amor é ter medo e querer morrer.

José Luís Peixoto

15 de mai de 2011

Foto do post... Emilya Manole




Quando me quiseres

Calço meus sapatos, fecho a minha mala.
Pouca coisa para levar, quase tudo para ficar.
Lembranças eu não quero; vivências que eu supero.
Vou com muita certeza, não admito estranheza
daqueles que não me amaram.
Quero a vida que não tive, nesse tempo todo que estive
tão próxima do anonimato.
Serei feliz, do meu jeito, sem toda essa dor dentro do peito
na espera inútil de findar.
Ouvirei de longe o seu chamado e, com os olhos bem fechados,
seguirei meu coração.
Todos os passos eu darei, como sempre imaginei...
em sua direção.

Silvia Munhoz

14 de mai de 2011

Foto do post... Steven Meisel




O meu amor perdido

Vou sair por aí. Sair pela rua em busca do meu amor perdido. Vou procurar pelas calçadas e até mesmo pelos bueiros. A chuva pode tê-lo levado daqui. De perto de mim. Vou sair em busca do meu amor. Desse amor que passou e deixou para trás somente recordações e, quiçá, saudade. Saudade suficiente que me faz buscar também debaixo da ponte e no meio do lamaçal feito pela chuva. Busco nas ruelas perdidas da cidade, nas calçadas brilhantes, lavadas pela chuva; busco, inclusive, na minha sombra, por baixo dos meus pés, com medo de ter, sem querer, machucado o meu amor. É quando cai a noite na cidade, que me vejo em ruelas desconhecidas, perdida de mim mesma. Em busca do meu amor me perdi de mim. Me esqueci de quem sou, na ânsia de encontrar esse "algo" que sumiu. Que sumiu de dentro de mim, que nem fumaça. Em mim só ficaram recordações, e perdido com o tempo, se perdeu o meu amor. Do nosso amor, só sobrou a saudade de um tempo que passou.

Ísis Rezende Costa de Lima

13 de mai de 2011

Foto do post... Nicole Kidman




Cobiço o sol nessa minha cara de chuva

Ponto de partida.
Eu e os meus contrapontos, nas suas complexas conexões.
Entre o branco e o preto, ilógica e incoerente minha alma navega em estado apocalíptico nos debates íntimos do paraíso perdido.
Sentimentos escondem-se em narrativas cifradas por suas rochas subterrâneas. Uma forma crua de acesso aos sons desafinados dos desejos e anseios estanques revelados no universo onírico de minha alma alarmada diante de mim mesma.
Na ordem desordenada do abalo sísmico do abismo que me guarda e me amedronta, me debruço e invoco a calma.
Quero uma calma mediática, harmônica e voraz.
Quero pensamentos mágicos roubando-me desse isolamento que me prende, com uma âncora, às esquinas de meus medos e às zonas de turbulências.
Minha urgência reflete-se no visível, no grito da alma, nos sentimentos bailarinos de minhas veias, no cansaço da tristeza, nos sonhos caídos por terra, nas distâncias insanas, nas sintonias dessintonizadas.
Coração está asilado. Sufocado. Sentimentos no avesso.
Cobiço o sol nessa minha cara de chuva, porque a vida não peguei emprestada.

Rosa Berg

11 de mai de 2011

Foto do post... Richard Gere & Julia Roberts




Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.

Júlio Cortázar

10 de mai de 2011

Foto do post... Letícia Bertoletto




Suster

Não fugir. Suster o peso da hora
Sem palavras minhas e sem os sonhos,
Fáceis, e sem as outras falsidades.
Numa espécie de morte mais terrível
Ser de mim despojado, ser
abandonado aos pés como um vestido.
Sem pressa atravessar a asfixia.
Não vergar. Suster o peso da hora
Até soltar sua canção intacta.

Cristovam Pavia

9 de mai de 2011

Foto do post... Gena Bachmann




Sabes o que notei em mim? Que a minha pele já não é como antes, que mudou sem que tenha descoberto uma ruga a mais. São sempre as mesmas rugas, as que tive aos vinte anos, só que cavadas, acentuadas. É um sinal, e de quê? De uma maneira geral, sabe-se onde isto nos leva: ao final. Mas além disso? Com que rostos vamos desaparecer, tu e eu? Não é envelhecer que me assombra, mas a desconhecida que sucede a uma desconhecida.

Ingeborg Bachmann

8 de mai de 2011

Foto do post... Gregory Crewdson




Os lençóis foram lavados
da nossa essência conjunta – um composto,
não uma mistura; mas aqui ainda estão
esquecidos, o teu cachimbo e tabaco,
os teus livros abertos na minha mesa,
a tua voz a falar nos meus poemas.

Fleur Adcock

7 de mai de 2011

Foto do post... Amy Irving & Barbra Streisand




Como eram ambos jovens e se moviam ainda às cegas nas franjas dos seus próprios desejos, a dança que faziam juntos não era uma dança em que tomavam posse um do outro, mas uma espécie de minuete, cujo objectivo consistia não em apropriar-se, não em agarrar, não em tocar, mas em permitir que o máximo de espaço e distância fluísse entre eles. Mover-se em sintonia, sem colisões, sem se fundirem. Descrever círculos, fazer vénias em sinal de devoção, rir dos mesmos absurdos, troçar dos seus próprios movimentos, lançar sobre as paredes sombras gémeas que nunca se tornariam uma só. Dançar em redor desse perigo: o perigo de se tornarem um só! Dançar confinando-se cada um ao seu próprio caminho. Permitir o paralelismo, mas sem que um se perdesse dentro do outro. Brincar ao casamento, a par e passo, ler o mesmo livro juntos, dançar uma dança de evasão na orla do desejo, permanecer dentro de círculos de luz sublimada, sem tocar no âmago que deitaria fogo ao circulo. Uma hábil dança de não-posse.

Anaïs Nin

6 de mai de 2011

Foto do post... Tania Brassesco & Lazlo Passi Norberto




Entre a poesia e a primavera

O meu coração nasceu nu,
logo em fraldas embalado.
Só mais tarde usou
poemas em vez de roupas.
Tal como a camisa que punha
levava sobre o corpo
a poesia que lera.

Vivi meio século assim
até que, sem uma palavra, nos encontrámos.

A minha camisa nas costas da cadeira
diz-me que hoje percebi
quantos anos
a decorar poemas
esperei por ti.

John Berger

5 de mai de 2011

Foto do post... Saoirse Bronan




Partem os meus olhos na tua ausência. Uma lágrima semeia o sonho no coração e existe uma chama que permanece trancada no meu segredo. Sofro-a como uma igreja desprezada em horas de abandono. Ouço-a gritar num ardor tão real. Encontrei as estrelas mas sei que o Inverno não irá terminar esta noite.

Francisco

4 de mai de 2011

Foto do post... Drew Barrymore




Curvo-me sobre a tua Ausência

deixa-me sonhar-te,
meu amado
ainda que me curve sobre a tua ausência
e a dor rasgue a cortina espessa da memória.

quando me sinto tua,
adormeço na doce teia dos teus braços.

MT-Teresa

3 de mai de 2011

Foto do post... Cate Blanchett




Todos os dias é assim
ela vai ali
aspira o cheiro dele
olha para a solidão, para o ermo.
Grafita o nome dele nela
Espera... em silêncio de vento
Ninguém responde. Ninguém diz nada.
Em qualquer língua que se entenda essa palavra.
Quando quase não suporta mais
ela sai...
Vai pra esquina
onde as ruas se cruzam entre rio e mar.
Balbucia saudade
e vai.Volta amanhã.
precisa.
Pra continuar a viver.

Mariana Gouveia

2 de mai de 2011

Foto do post... Marilyn Monroe




Deixas rasto no meu peito durante horas. Dou com
cabelos teus colados, dias depois, à roupa do meu sorriso.
Encontro nos vincos mais longínquos dos meus
dedos o cheiro parado do teu olhar tão móvel. Procuro-te
nas esquinas dos instantes que passam. Reconheço-te
no vinco que a ternura deixa na carne do peito do
meu olhar, aquele que deito para longe, para outra esquina,
de onde recebo mensagens de outro olhar igualmente
teu, igualmente meu, reflectido na montra de
uma loja do nosso sono.

Deslizo. Deito-me sobre as lembranças.

[...]

O amor compassado e irregular como um signo.

E procuro-te sempre, na ausência da carne que os dias
me traçam na pele.

E depois na presença eu
... presença tu.

Manuel Cintra

1 de mai de 2011

Foto do post... (desconheço)




Quase Tudo

Este adeus à tarde sem me cumprir no dia,
este instante em que tento redimir
este vício de não saber partir...
Bastava fechar os olhos à memória
e perseguir a noite. Imensa.
Quase nada. Quase tudo.
E, no entanto, se um gesto não se dobra,
se uma palavra tarda,
desfaz-se o último vestígio da paisagem.

Aurora Simões de Matos