"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo de cores tão intensas... lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da voz fascinante de Petra Magoni... que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

30 de jun de 2011

Foto do post... Frederike Wetzels




Vê como a boca é triste
quando sorri a distância;

quando o inverno das asas
já atravessa os espaços e
cava na terra a sombra de uma
ausência.

Prova difícil é crermos no azul.

Luísa Freire

29 de jun de 2011

Foto do post... Алексей Ковалёв




Cartas à mesa

Sempre há uma ausência
presente
na sala de visitas
no dormitório
em cada pequeno pedaço
da colcha de retalhos
sobre a cama
Porque
(qual o por quê?)
os dias construídos com tijolos
de distâncias
fraturas
e à janela um olhar passeia
sempre à procura

Joana Maria Guimarães

28 de jun de 2011

Foto do post... Ida Borg




Todas as pessoas sozinhas dançam devagar na sala de espera
mesmo que o dia seja quente e convide a passeios ao luar.
A música é sempre a mesma, assobiada ao ouvido
por um rapazinho tímido e fechado do qual não se sabe o nome
e a destreza que podemos alcançar, neste querer dar o passo certo,
é apenas uma mínima ideia da força dos nossos desejos.

Todas as pessoas sozinhas sorriem em frente ao espelho
e lavam os dentes como quem arranca beijos à emoção
de ter ali, à nossa frente, alguém de quem gostamos muito.
A porta da rua é um lugar onde só se sai,
a nossa família é uma fotografia pendurada na parede
e os amigos são aqueles que nos dão bons dias no café.

Todas as pessoas sozinhas gritam baixinho os nomes esquecidos
que outras pessoas sozinhas lhes sussurraram alto uma vez,
quando ainda éramos todos uns dos outros.
Engomada a camisa, vestimo-nos com o cuidado solene
daqueles que vestem camisas com emoção e significado
enquanto esperam a hora certa para morrer ou nascer.

Todas as pessoas sozinhas todas as pessoas sozinhas
embrulhadas em lençóis frescos porque é Verão
a rebolar as dores de pescoço pelas duas almofadas da cama
e a pensar que de tanto dormir assim sem ninguém
vai ser difícil voltar a adormecer só num dos cantos do colchão.

Todas as pessoas sozinhas todas as pessoas sozinhas.

Luís Filipe Cristóvão

27 de jun de 2011

Foto do post... Lily Cole




Ar...

Está só. E a partir do momento em que começa
a respirar,

está em nenhum lugar. Morte plural, nascida

no maxilar do singular,

e a palavra que levantaria uma parede
a partir da mais íntima pedra
da vida.

Porque ele deixa de ser
por cada coisa de que fala —

e em lugar de si mesmo,
ele diz eu, como se também ele começasse
a viver em todos os outros

que não são. Porque a cidade é monstruosa,
e a sua boca não prova
matéria alguma

que não devore a palavra
de um outro.

Assim, há-as muitas,
e todas estas muitas vidas
talhadas nas pedras
de uma parede,
e aquele que começasse a respirar
aprenderia que não há outro lugar para onde ir
senão este lugar.

Por isso, ele recomeça,

como se fosse respirar
a última vez.

Porque não há outra vez. E é o fim do tempo

que começa.

Paul Auster

26 de jun de 2011

Foto do post... Sharon Tate




Acalanto para a dor

Hoje guardo os poemas que te fiz
Recolho as rimas, as palavras loucas
Os versos amarrotados, amontôo

Hoje desejo o inexplicável
Acariciar o nada, sentir o vazio
Alhear-me de qualquer lamento

Hoje prefiro a imprecisão, o disfarce
Asfixiem os tolos suspiros e murmúrios
Ou qualquer voz que fale de saudade

Hoje embrulho a ilusão, a espera
Engaveto os delírios e quimeras
Lavo-me dos cheiros das promessas

Hoje não me falem de poesia
Emudeçam o sol, vigiem a lua

Silêncio!!!... Minha dor quer apenas dormir...

Fernanda Guimarães

25 de jun de 2011

Foto do post... Doris Day




Em redefinição

para Ser
preciso aceitar
impotências e calmarias
tempestades e girassóis
promessas e muralhas

para Ser
preciso enxergar
ratos e miragens
entranhas e oitavas
camélias e adagas

para Ser
preciso antes
me perder
e em novos
espelhos
me reconhecer

Euza Noronha

24 de jun de 2011

Foto do post... Monica Bellucci




Canção Molhada

Gotas de som molhado
Caem lá fora,
Num ruído triste...
É o silêncio gelado
Da noite que chora
Sobre tudo o que existe.
E a minha mágoa
Naquelas gotas de água
Parece encarnar.
Vago na sombra escura...
Sou morto sem sepultura
E sou nuvem a chorar...

Teixeira de Pascoaes

23 de jun de 2011

Foto do post... Jari Silomäki




Um minuto sobre o lado
esquerdo.
Um minuto sobre o lado
direito.
Um pouco de costas,
um segundo sobre o ventre.
Dou voltas no vazio.
Frio nos meus sonhos,
frio na minha cama.
Os ladrões de sono saquearam a minha noite,
um deles teve pena de mim
e deixou-me a manhã
na mesa-de-cabeceira.

Maram-Al-Masri

22 de jun de 2011

Foto do post... Haleh Bryan




Os braços foram-me tirados, cantava. Fui punida por abraçar. Abracei.
Prendi todos os que amei. Prendi nos momentos mais belos da minha vida.
Fechei nas mãos a plenitude de cada hora.
Os braços apertados no desejo de abraçar.
Quis abraçar a luz, o vento, o sol, a noite, o mundo inteiro e quis retê-los.
Quis acariciar, curar, embalar, aclamar, envolver, cercar.
Forcei-os e prendi de tal modo que se partiram; partiram de mim."

Anaïs Nin

21 de jun de 2011

Foto do post... Simona Ghizzoni




silêncio

o som do silêncio
- de si cansado
vai crescendo em sussurro
como o do ventre cortado
da laranja

até que se gera o grito
e se alonga
ao infinito
onde tudo se torna
silêncio de novo

Nivaldete Ferreira

20 de jun de 2011

Foto do post... (desconheço autoria)




entra tão pouca luz no quarto,
o ocre antigo das paredes desliza pelo chão
e despe-se nas minhas pernas,

não sei se o sol nasce ou morre,
no meu corpo indecifrável
o mundo parte devagar

e os sons para trás acomodam-se no meu ouvido
como finos vapores húmidos,
sem dia, sem noite, apenas as horas ficam,

e o meu peito adormece.

Alma Kodiak

18 de jun de 2011

Foto do post... Katia Chausheva




Assuntos

Depois saberei quem sou, quem me tem ou que tenho
neste desmembrar-me ao poente, o ouvido
na almofada apoiado para escutar a noite;
ou neste despertar com a nuca apertada.
Oh solidão sem par, carência desse trecho
de tempo intransferível, após anos demais
e quarenta, a buscar-me; após tão longas noites
que em realidade - sei hoje - foram a minha vida.

María Victoria Atencia
(trad. José Bento)

17 de jun de 2011

Foto do post... Patrick Swayze & Demi Moore




Conta-mo outra vez

Conta-mo outra vez, é tão formoso
que não me canso nunca de escutá-lo.
Repete-mo de novo, os dois da história
foram felizes até vir a morte,
ela não foi infiel, ele nem
se lembrou de enganá-la.
E não esqueças, apesar do tempo e dos problemas,
todas as noites sempre se beijavam.

Conta-mo mil vezes, se faz favor:
é a história mais bela que conheço.

Amalia Bautista

16 de jun de 2011

Foto do post... Yolanda Pereira




Iolanda

Esta canção nao é mais que mais uma canção
Quem dera fosse uma declaração de amor
Romântica, sem procurar a justa forma
Do que lhe vem de forma assim tão caudalosa
Te amo,
te amo,
eternamente te amo

Se me faltares, nem por isso eu morro
Se é pra morrer, quero morrer contigo
Minha solidão se sente acompanhada
Por isso às vezes sei que necessito
Teu colo,
teu colo,
eternamente teu colo

Quando te vi, eu bem que estava certo
De que me sentiria descoberto
A minha pele vais despindo aos poucos
Me abres o peito quando me acumulas
De amores,
de amores,
eternamente de amores

Se alguma vez me sinto derrotado
Eu abro mão do sol de cada dia
Rezando o credo que tu me ensinaste
Olho teu rosto e digo à ventania
Iolanda, Iolanda, eternamente Iolanda

Pablo Milanés
(pra voce, meu "véio"...)

12 de jun de 2011

Foto do post... Jenna Fischer




Nestes dias...

São muitos os dias em que os meus bolsos estão vazios.
Nestes dias, não há peça de vestuário que me abrigue da nudez.

Nelson d'Aires

11 de jun de 2011

Foto do post... Joss Stone




Queixas

Ele mesmo dissera que se ela não estivesse satisfeita que fosse se queixar ao bispo. E ela foi. Contou tudo o que havia se passado entre eles: a acusação de ser ela a culpada dos pesadelos dele, os encontros só em dias sorteados no calendário, e não deixou de mencionar que ele não a queria com as unhas dos pés pintadas de vermelho, como ela sempre usara até conhecê-lo. Quando ela terminou, o bispo apenas disse, com a voz baixa e calma de quem passou a vida a ouvir queixas:

- Volte hoje à noite, às dez.
E venha com as unhas dos pés pintadas de vermelho.

Ana Flores

9 de jun de 2011

Foto do post... (desconheço)




fotografias gastas
onde o espaço treme em
rostos imprecisos

cicatrizes envelhecendo
como adereços

excesso de miragens
dividindo-se em ciclos de ausência

pressinto-te na espuma das marés
e abrem-se clareiras no tempo

o sabor a lucidez é modelado na voz
a loucura desprendende-se
indecisa nas imagens tocadas pela nitidez

Maria Sousa

7 de jun de 2011

Foto do post... Pilar Lopez Ayala




Morro calmamente

Acerto a volta da hora
quando um prudente restolho
se desprende da fuga de pássaros,
antecipando saltos
ao ritmo das borboletas
que trazes no corpo.

Acendo-me
na chama que acumulas em ti
quando me desfraldas em carícias
e te embalo nos meus braços,
como se neles tudo fosse inaugural.

Morro calmamente
na hora do adeus
quando o verso do espelho
me recusa e desconhece,
demorando a verdade quente
da tua pele na minha.

Nilson Barcelli

6 de jun de 2011

Foto do post... Dale Jordan




Revelação

Queres saber quem sou?
Eu sou a que te olha e espia para te recolher
e depois guardar num lugar que é só meu.

Eu sou a que mergulha as mãos na tua vida
para sentir a minha voltar.

Pedro Paixão

2 de jun de 2011

Foto do post... Kim Novak




Nunca

Nunca
mas nunca será ela capaz
de andar
da mesma forma que foi capaz
de sulcar os espelhos

Vasko Popa