"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo de cores tão intensas... lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da voz fascinante de Petra Magoni... que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

31 de ago de 2011

Foto do post... Craig Tracy




Relâmpago

Rompe-se a escuridão quando o olhar
para uma face o mundo se ilumina
com uma claridade repentina
capaz de, só por si, fazer brilhar

a substância tão irregular
de tudo o que se acende na retina
e através da luz se dissemina
por entre imagens vãs, até formar

um fluido movimento, uma paisagem
a que estes olhos quase não reagem
salvo se nesse instante o rosto for

transfigurado pela fantasia.
E às vezes é só isso que anuncia
aquilo a que chamamos o amor.

Fernando Pinto do Amaral

30 de ago de 2011

Foto do post... Emilya Manole




Lascívia

Em que pensas
quando mordes os bagos
da romã que te entrego
com a minha mão
inteira

Bárbara Pais

29 de ago de 2011

Foto do post... Marilyn Monroe




Pedido

Olha para mim sei que cresci
mas não deixa de procurar a menina
aquela que se esconde no meu olho
aquela que guardo
inteira
dentro de mim
Esquece o efêmero.
O que (re)cobre tudo é massa de moldar
trans/formada pelo tempo.

Eliana Mora

28 de ago de 2011

Foto do post... (desconheço)




Poema

Senhora de muito espanto,
vestindo coisas longínquas
e alguns farrapos de sono,

eu vim para te dizer
que inutilmente contemplo
na planície de teus olhos
o incêndio do meu orgulho.

Senhora de muito espanto,
sentada além do crepúsculo
e perfeitamente alheia
a realejos e manhãs.

Eu vim para te mostrar
que se inaugurou um abismo
vertical e indefinido
que vai do meu lábio arguto
ao chumbo do teu vestido.

Senhora de muito espanto
e alguns farrapos de sono,
onde o céu é coisa gasta
que ao meu gesto se confunde.

Um dia perdi teu corpo
nas cores do mapa-múndi.

Carlos Penna Filho

22 de ago de 2011

Foto do post... Florence Welch




Água Perrier

Não quero mudar você
nem mostrar novos mundos
pois eu, meu amor, acho graça até mesmo em clichês

Adoro esse olhar blasé
que não só já viu quase tudo
mas acha tudo tão déjà vu mesmo antes de ver.

Só proponho
alimentar meu tédio.
Para tanto, exponho
a minha admiração.
Você em troca cede o
seu olhar sem sonhos
à minha contemplação:

Adoro, sei lá por que,
esse olhar
meio escudo
que em vez de meu álcool forte pede água Perrier...

Antônio Cícero

21 de ago de 2011

Foto do post...Harvey Keitel & Holly Hunter




Sei ao chegar em casa

Sei
ao chegar a casa
qual de nós
voltou primeiro do emprego

Tu
se o ar é fresco

eu
se deixo de respirar
subitamente

António Reis

20 de ago de 2011

Foto do post... Aino Kannisto




O livro

Havia de encontrar
alguma velha ferida
e nela, supurando ainda,
teu rosto:
outonos e invernos
esquecidos
entre páginas amarelas
e a dor,
essa traça inútil.

Micheliny Verunschk

18 de ago de 2011

Foto do post... Catherine Deneuve




Memórias de um chapéu

Quisera então saber toda a verdade
De um chapéu na rua encontrado
Trazendo a esse dia uma saudade
D´algum segredo antigo e apagado
Sentado junto à porta desse encontro
Ficando sem saber a quem falar
Parado sem saber qual era o ponto
Em que devia então eu começar

Parada na varanda estava ela a meditar
Quem sabe se na chuva, no sol, no vento ou mar
E eu ali parado perdi-me a delirar
Se aquela beleza era meu segredo a desvendar
Porém apagou-se a incerteza
Eram traços de beleza os seus olhos a brilhar
E vendo que outro olhar em frente havia
Só não via quem não queria da paixão ouvir falar

Um dia entre a memória e o esquecimento
Colhi aquele chapéu envelhecido
Soltei o pó antigo entregue ao vento
Lembrando aquele sorriso prometido
As abas tinham vincos mal traçados
Marcados pelas penas ressequidas
As curvas eram restos enfeitados
De um corte de paixões então vividas

Aldina Duarte

17 de ago de 2011

Foto do post... Aino Kannisto




Próximo à viagem

Aqui em meu quarto
restarão todas as coisas que
me acompanham.
Ainda que em minha escrivaninha
se abisme o último grão da vertical de areia,
continuará incessante em meu corpo.
No regresso, se eu regressar, os livros terão algo de poeira.
A tarde se acostumará
à penumbra do silêncio.
Somente deixo minha ausência.

Arturo Herrera
(trad. de Ronaldo Cagiano)

16 de ago de 2011

Foto do post... Brigitte Carnochan




Magnólias

Tome-as nas mãos
e saberás por que magnólias
são fatais.

Se rasgares a pétala,
notarás fissuras no tecido.
Lâmina carnosa, cristal dissolvido em nuvem.
Nas nervuras há poros do mais puro branco.
Alvíssimo alvo.
Verás contudo que é Siena a cor de fundo.
Dessas calcinadas terras se colorem
as flores mortas.

À noite secretam perfumes.
Polinizam o ar.
Elas, ventres fecundos.

Perdidas as pétalas, resta íntimo caroço.
Sementes vermelhas brotam súbito,
lisas, alongadas.
Fava incendiada, rubra é a cor que requeres
para o mistério de seu viço alvar.

Depois da chuva alguma água restará no tenro cálice.
Mas não muita.
se contemplando te detiveres,
sucumbirás à excessiva luz.
Evita navegar na clausura desse mar.

Antonio Fernando De Franceschi

14 de ago de 2011

Foto do post... Sebastian Fatale




Reinvenção

Renasci... agora é preciso... (me) reinventar!...

Que cores, que formas, que flores para compor um ser (ainda) tão volátil?...

Que linhas, que sonhos, que laços para tecer nossos diagramas-re-bordados?....

Que trilhas, que caminhos e desvios para encontrar meus eus nos próprios labyrintos (revirados)?...

Que vozes, que luzes, que fios e luas cheias ao inventar novas canções no fundo da alada-alma-amante?...

Tudo cheira a chuva no verde-violeta do jardim... e meu desejo é que faças sempre parte de mim, Flor de Lyz em meu mundo recriado!...

Ana Luisa Kaminski

11 de ago de 2011

Foto do post... (desconheço)




lições

não há nada tão triste
como a primeira coisa
que escondemos numa gaveta

ou a última pessoa
que enterramos num papel

gil t. sousa

9 de ago de 2011

Foto do post... Ekaterina Grigorieva




Vontade doce

Tenho vontade
duma coisa doce
como se fosse vontade de ti.

Tenho vontade
de uma coisa suave
como canto de ave
que encanta e sorri.

Tenho vontade de algo diferente
que deixa semente
agora e aqui

Tenho vontade
de dizer ao mundo
que doí, muito fundo
a vida, sem ti.

Maria Mamede

8 de ago de 2011

Foto do post... Penelope Cruz




Eu Comigo

Muito briguei eu comigo,
tive raiva,
me insultei.

E, de incontido desgosto,
em meu próprio ombro chorei.

Helena Kolody

7 de ago de 2011

Foto do post... Ekaterina Grigorieva




Retratar a tristeza em vão procura
Quem na vida um só pesar não sente
Porque sempre vestígios de contente
Hão-de apar'cer por baixo da pintura:

Porém eu, infeliz, que a desventura
O mínimo prazer me não consente,
Em dizendo o que sinto, a mim somente
Parece que compete esta figura.

Sinto o bárbaro efeito das mudanças,
Dos pesares o mais cruel pesar,
Sinto do que perdi tristes lembranças;

Condenam-me a chorar e a não chorar,
Sinto a perda total das esperanças,
E sinto-me morrer sem acabar.

Marquesa de Alorna

6 de ago de 2011

Foto do post... Maggie Cheung Ruan




Contemplação primaveril

Lamento que, quando se abrem as flores,
não as possamos contemplar juntos.
Quando caem, partilhamos as penas,
mas em lugares diferentes.
Alguém pergunta-me:
- Que tempo te provoca
mais sofrimentos de amor?
Eis a minha resposta:
os dias em que se abrem as flores
e também aqueles em que tombam por terra.

Xue Tao

5 de ago de 2011

Foto do post... Ekaterina Grigorieva




Cansaço

Todos os brancos sonos
Da minha calma
Caíram na fímbria escura do firmamento.

Ora a dúvida cobre minha alma
E meus sonhos são produtos do tormento.

Ah, queria dormir de anseios livre
Saber de um rio fundo, como o que em mim vive.

E fluir com suas águas...

Else Lasker-Schüler

4 de ago de 2011

Foto do post... Mia Farrow




Virando a vida

Passei tanto tempo colecionando suas ausências que acabei juntando seus pontos, vírgulas e reticências ao meu enorme acervo de solidão.

Quando, porém, minha caixa de preciosidades ficou insuportavelmente cheia, joguei tudo fora: ele, minha dor e seus silêncios.

Resolvida a questão, recomecei do zero.

Outro personagem. Uma nova coleção.

Mariza Lourenço

3 de ago de 2011

Foto do post... Lily Cole




Coleccionador de quimeras

Quando as minhas angústias
começam a morder-me
ponho-lhes a trela
saio à rua a passeá-las
e deixo-as ladrar
ao tédio transeunte.
Depois ponho-lhes asas
e deixo-as voar
como pássaros
em busca de primaveras
imprevisíveis.

António Tomé

2 de ago de 2011

Foto do post... Tilda Swinton




A foto

Faz-me uma dessas fotos que tu fazes,
embaça o objetivo, tira de foco
o justo e confere mal a luz. Agora
que está caindo o dia não é difícil
sair favorecida. Que os traços
se suavizem, que todas as rugas
da alma e do contorno dos olhos
desapareçam e que quem me olhar
pense que posso merecer sua pena.
E sobretudo, que aquilo que emocione
dessa foto não seja eu, que saio
aí, senão teus olhos que a fizeram.

Amalia Bautista

1 de ago de 2011

Foto do post... Marilyn Monroe




Pousei as palavras

Pousei as palavras sobre a mesa de cabeceira.
A cama estava fria. Lembro-me que me levantei
e saí para a planície:

– O sol levantava-se por detrás da montanha e eu
bebi-o sofregamente.

Voltei para casa – a cama era uma imensa fogueira!
As palavras, essas, foram consumidas pelo fogo. E a
alegria invadiu-me como o sol ao meio-dia:

– E a planície era um mar de luz aveludada e de jasmins.
Agosto brotou do coração.

José Almeida da Silva