"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo de cores tão intensas... lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da voz fascinante de Petra Magoni... que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

31 de out de 2011

Foto do post... michaelrecycles




O meu corpo, se bem que leve, é um peso que arrasto sem forças para tanto, um peso que me dói, além de me pesar e de me coagir a arrastá-lo. Desejaria não o sentir, como não sinto o ar que respiro, embora esteja envolvida nele e com ele. Queria deslocar o corpo sem esforço, tal como desloco fluidos, cheiros, poeira, quando caminho de qualquer lado para qualquer lado. Queria disponibilizar o corpo, guardá-lo bem fechado numa gaveta secreta e, quando precisasse, ia lá buscá-lo, trazia-o comigo e dizia-lhe: agora quero sentir-te, mostra-me lá como é, dá-me apetites e desejos que eu possa facilmente satisfazer, dá um prazer à alma que te habita... Eu desejaria enrolar-me no meu corpo, como se eu fosse seda e ele puro espírito.

Fernanda Botelho

30 de out de 2011

Foto do post... (desconheço)




Nada mais triste... Um carrossel à chuva. Eu hoje sou o carrossel molhado. Que girou sob o sol que não havia. Mas havia. Que se deixou ficar. Parado. Ferrugento. Chiando com o vento. À chuva. Sabendo que não houve nunca sol. Mas houve. Que só a chuva é real. Mas não. Neste decisivo momento, como são todos, podia fingir que canto. Que não me importo de estar ao sol ou à chuva. Que não sou esta imagem de desalento ou estas notas que parecem gotas. Mas não. Nada mais triste. Não conseguir fingir. Que canto. Ou que enlouqueço.

Brad Mehldau

29 de out de 2011

Foto do post... Marion Cotillard




dia

desde que foi embora, o mesmo ritual:
caixa sobre o colo, eu tiro o laço,
desfaço a fita, jogo a tampa
e não me animo com o presente.
desde que foi embora,
eu apenas desembrulho o meu dia.
sem etiqueta de troca,
não sei o que faço com ele.

Eduardo Baszczyn

25 de out de 2011

Foto do post... Marilyn Monroe




Rito

por séculos de luas frias
quantas vezes me perdi
nos corredores do tempo
ai as mulheres que fui
nessa galeria de espelhos
minha sombra como um grito
como um uivo a me seguir
separada de mim
por um palmo de deserto
éramos tantas as náufragas
as loucas
quando uma morria
logo vinha outra
trocávamos de olhos
como se troca de roupa
por séculos de luas frias
ai as mulheres que fui
como pássaros numa caixa.

Roseana Murray

23 de out de 2011

Foto do post... Howard Schatz




Sou margem...

Diante da quietude e do lirismo...
Sou pensamento que desliza
sobre as calmas águas do tempo.

Sou saudade
que deságua no presente,
e represa o passado.

Sou margem...
Sou o silêncio,
que acolhe a solidão.

Bruno de Paula

22 de out de 2011

Foto do post... Lily Cole




Onde?

Onde estão os meus sorrisos?
- na gaveta do criado mudo.
E minhas alegrias onde estão?
- enroladas num lencinho
no bolso do sobretudo.
Ahhhh... quero paz, onde está minha paz?
- no vaso de lírios sobre a mesa.
Me dê então o amor, onde o amor?
- ainda há pouco estava aqui,
ardendo como uma vela acesa...

£una

14 de out de 2011

Foto do post... Helen Mirrer




quantas vezes me despeço de ti
sem saber

onde vais

quantas vezes me despeço de ti
sem saber a razão
sem saber de tua mão
sem saber

quantas vezes sem saber
me levanto ao bater da porta
do soalho no passo breve curto certo

te procuro nas gavetas
em sombras atrás dos muros
em sombras que o vento traz
com ramos a bater nas vidraças

quantas vezes te sei aqui e não te vejo
(...)

Inez Andrade Paes

9 de out de 2011

Foto do post... (desconheço)




Como se estivesse num café

Espero
sentada
tranquilamente
em mim

Espero
como se estivesse num café
cheio de gente

Yvette Centeno

2 de out de 2011

Foto do post... Elizabeth Taylor




Pusemos tanto azul nessa distância
ancorada em incerta claridade
e ficamos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.

Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.

Natália Correia