"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo de cores tão intensas... lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da voz fascinante de Petra Magoni... que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

30 de nov de 2011

Foto do post... Tiago Hoisel




Isso, vai, anda com os ombros sempre bem erguidos. Faz a borboleta ter vontade de pousar. E você nem desconfia que agora mesmo existe alguém de olho em coisas que nem você sabe. Alguém que sonha um dia te contar sobre seus próprios segredos - esses capazes de deixar qualquer um com toda vontade de pousar no seu ombro. E te adorar com todos os dentes.

Gabito Nunes

27 de nov de 2011

Foto do post... Claudia Schiffer




Estar vivo
é abrir uma gaveta
na cozinha,
tirar uma faca de cabo preto,
descascar uma laranja.

Viver é outra coisa:
deixas a gaveta fechada
e arrancas tudo
com unhas e dentes,
o sabor amargo da casca
de tão doce,
não o esqueces.

Luís Filipe Parrado

25 de nov de 2011

Foto do post... Marta Ferreira




Constatação

O problema não é a vida sem ti. Já tive uma vida assim e eram dias que faziam todo o sentido. Difícil é uma vida depois de ti. O depois não acaba nunca.

Sofia

24 de nov de 2011

Foto do post... Gregory Crewdson




Desperdício

Passamos a maior parte do tempo
na vã tentativa de recolher
os despojos do que fomos

mas nem juntamos os cacos do presente
nem resgatamos o soluço da véspera.

Newton de Lucca

23 de nov de 2011

Foto do post... Marilyn Monroe




Às vezes paro à porta
com o olhar perdido e habituado ao silêncio,
há mais desertos ainda, dias
e morte noutros olhos.
Com a garganta habituada à sede,
com os pés às feridas,
saio para a rua
e já não há umbrais.

Ando um dia, passo outro,
acabo uma semana de vidros partidos
e tosse mais velha.
Hoje parece que sempre
choveu sobre mim,
e não me importa
se a chuva já não se parece ao esquecimento
e apenas deixa charcos, paredes mais sujas
e fuligem e tristeza nos olhos de rímel,
ainda tenho sede
e não me importa
voltar às coisas más e aos velhos tugúrios
à procura de algo que não encontro nem recordo,
que costuma principiar por um encontro,
talvez por outra palavra
e corre o perigo de crispar-se
até a forma da folha da faca.

Às vezes tudo é tão estranho
que não basta continuar a andar.

Alfonso Barrocal
(trad. de Joaquim Manuel Magalhães)

22 de nov de 2011

Foto do post... Jessica Tandy




Vê como a boca é triste
quando sorri a distância;

quando o inverno das asas
já atravessa os espaços e
cava na terra a sombra de uma
ausência.

Prova difícil é crermos no azul.

Luísa Freire

21 de nov de 2011

Foto do post... Joan Allen




... sonho com uma velhice silenciosa e melancólica, a mão esquecida sobre a cabeça de um cão. o olhar preso ao cíclico fascínio das águas e dos jardins. sonho com uma velhice onde a solidão não doa. solidão superpovoada de amigos, de silhuetas andróginas para o amor, de rostos belos como sensações de sorrisos, de mãos que aprenderam a falar.

Al Berto

20 de nov de 2011

Foto do post... Gregory Crewdson




Os dias cinzentos

Os dias cinzentos. Eles vêm, eles insinuam-se com o tempo. Deixas de vislumbrar os matizes que desaparecem como ténues, cintilantes flocos na memória. Ficar sentado e pensar de repente. Que está mais cinzento, que queres libertar-te, mas continuas sentado, em completo silêncio, imaginas-te dentro do cinzento porque há nele uma leveza, porque ele é algo de fortuito que se ajusta bem aos dias, e quando queres sair dele, estás deitado indefeso no meio do caminho, como um animalzinho, destrutível, mesmo com o mais ligeiro toque.

Aasne Linnesta

19 de nov de 2011

Foto do post... Jamari Lior




A passagem

Neste regaço chuva seca
Descanso minha alma
Sorumbática erva-de-orvalho
Á sombra de tua porta...
Onde já nem sequer me aguardas
Em sorrisos de girassol…

Ah!
Quimera que se foi, já-era
como os soluços terríveis do vento
deste vento que já não balança

Aqui havia… flores...

Flores que espalhavam olhos límpidos
Pendentes sobre violetas…

Sucumbiram!

Ah... nocturno Chopin
De aromas perturbantes
Traçados em partituras de jasmim
Roseiral... que já não dás rosas dantes
Já não és rendas de gramíneas pelos montes
Onde os meus sentidos se poisavam
Nos lençóis de pálpebras que desciam
Que te faziam ouvir passos…

... escuta amor... abre a porta. Sou Eu!
... já não há porta… e já não bato Eu!

Assiria

18 de nov de 2011

Foto do post... LJ Gray




Poema para uma namorada que inventei

Hoje quero
celebrar tua ausência
o teu silêncio.

exaltar a tua solidão
e com ela
partilhar
o doce aroma de pitanga madura
dos teus beijos ausentes.

Como se fosses um sonho,
Um poema sem fundamento
Ou apenas imagem que criei.

Manuel C. Amor

16 de nov de 2011

Foto do post... Tiago Hoisel




Despojamento

Eliminei o excesso de paisagem
simplifiquei toda a decoração
retirei quadros flores ornamentos
apaguei velas copos guardanapos
e a música

Bani a inutilidade do discurso

Na mesa de madeira
nua
apenas dois pratos
brancos
sem talheres

O banquete será tua presença

Ivo Barroso

15 de nov de 2011

Foto do post... Mariana Ximenes




Violoncelo

Chorai, arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo…

De que esvoaçam,
Brancos, os arcos…
Por baixo passam,
Se despedaçam
No rio, os barcos.

Fundas, soluçam
Caudais de choro
Que ruínas, (ouçam)!
Se debruçam,
Que sorvedouro!…

Trêmulos astros…
Soidões lacustres…
- Lemes e mastros.
E os alabastros
Dos balaústres!

Urnas quebradas!
Blocos de gelo…
- Chorai, arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.

Camilo Pessanha

14 de nov de 2011

Foto do post... Ekaterina Grigorieva




Descanso

Quando durmo, nada sinto,
e em mal e bem indistinto
nada posso conhecer:
não sei aquilo que sou,
nem o que fui, nem se vou
saber o que devo ser.

Pierre de Ronsard
(trad. Vasco Graça Moura)

12 de nov de 2011

Foto do post... Loreena Kennitt




e porque hoje é uma daquelas noites...

... quero perder os sentidos e ondular a minha alma na melodia que me transporta para os confins do universo e me deixa lá, suspensa, iluminando a escuridão do meu silêncio.
Nesta atmosfera onde o místico me envolve, permanecerei, sem pressa de voltar...

OA.S

11 de nov de 2011

Foto do post... Alice Lemarin




Aguarelo de laranjas a manhã

Espremo um gomo entre a língua e o palato.
Como se pintasse frescos na cúpula,
aguarelo a manhã pelo pensamento incolor.
Misturo mais azul, abro o brilho,
contrasto as cores que já vejo.

Posso viver só de laranjas
e do ar que respiro,
com vista para o mar,
aqui, onde escolhi ficar.

Isabel Solano

10 de nov de 2011

Foto do post... Fred Perrot




Por vezes

Sinto-me como um olho d'agua...
explodindo ávido por correr

... e noutras

sinto-me como um velho rio
que corre sossegado
contemplando suas margens...

Wanda Monteiro

9 de nov de 2011

Foto do post... Dmitry Bocharov




A gente tem que morrer tantas vezes durante a vida,
que eu já tô ficando craque em ressurreição.
Bobeou eu tô morrendo.
Na minha extrema pulsão, na minha extrema-unção,
na minha extrema menção de acordar viva todo dia.
Há dores que, sinceramente, eu não resolvo.
Sinceramente sucumbo.

Elisa Lucinda

6 de nov de 2011

Foto do post... Saharoza




flor de sal

não chames por mim
levo nos olhos queimados
o fim dos desertos

não te posso escutar
na branca solidão dos dias
porque até no meu silêncio
te matei

não chames por mim
levo nos passos
o veneno da Lua

a espuma do tempo
sai-me das mãos vazias
e apaga o trilho
por onde as vozes
podem chegar

não chames por mim
levo o peito tão rasgado
de ausência!

e no meu coração
só há
uma vermelha flor de sal
que já ninguém
pode tocar

gil t. sousa

5 de nov de 2011

Foto do post... Selina de Maeyer




Esse lado de mim que vive
Desejando partir
É minha metade forasteira,
Selvagem e traiçoeira...

Chega ansiando ir embora,
Parte pensando em voltar,
E amarga uma impaciência que não controla...

Esse lado de mim que passeia pela vida
Sorrindo diante do intocável,
Brilhando olhos de lobo,
Voz mansa quebrando o silêncio,
É a parte de mim que não sabe o que quer,
Minha metade cansada,
Frágil e sensível...

Deseja ser guiada por um sonho,
Brincar na memória de alguém,
Ser parte eterna de uma alma
Que já aprendeu a amar...

Débora Böttcher

4 de nov de 2011

Foto do post... (desconheço)




Acontece na vida de toda a gente. De repente, a porta que se fechou entreabre-se, a grade que se acabou de descer volta a erguer-se, o não definitivo já não é senão um talvez, o mundo transfigura-se, um sangue novo corre-nos nas veias. É a esperança. Pena suspensa. O veredicto de um juiz, de um médico, de um cônsul fica adiado. Uma voz anuncia-nos que nem tudo está perdido. Trémulos, com lágrimas de gratidão nos olhos, passamos para o aposento seguinte, onde nos pedem para esperarmos, antes de nos lançarem no abismo.

Nina Berberova

3 de nov de 2011

Foto do post... Frederike Wetzels




Só escuro e frio...

Portas que se abrem para o vazio,
Para a escuridão de uma existência sem o calor,
O aconchego de um carinho.
Só escuro e frio, esse espaço, que sentes
Ao atravessar as portas do tempo…

Nem orquídeas, nem flores de cerejeira
Nem o fogo na lareira… ardendo lento!

Dentro, apenas o passado, o efémero…
Gravado nas pedras nuas… com lágrimas
Minhas, e porventura, tuas...

BlueShell