"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo de cores tão intensas... lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da voz fascinante de Petra Magoni... que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

31 de jan de 2012

Foto do post... Anne Baxter




Um dia é pouco ao pé de Margarida

A nossa intimidade a três ou quatro é constrangida.
Tenho medo no ângor e uma urtiga no pé.
Um dia é pouco ao pé de Margarida:
A ausência é menos sozinha,
A muita companhia dá bandos longe. Até
A vida
É
Se tua, já menos minha:
Se própria de meu, repartida,
Por muitos na atenção, nem tua é.
Só nossa solidão dual e penetrada
Evita o perigo do nada
A que, por condição, setas, as nossas pernas
Apontam na cavidade inexorável,
Fim de molécula qualquer.
Mas, entretanto, Margarida amável
Será flor, ou mulher?

Vitorino Nemésio

30 de jan de 2012

Foto do post... Marilyn Monroe




A meias

Bebo o meu café enquanto bebes
do meu café. Intriga-me que faças isso.
Se te posso pedir um
(se podes tomar um igual)
porque hás-de querer do meu?
Que
não. Que não queres. Escuso
de pedir
que não queres. Então
começo
um cigarro e tu fumas do
meu cigarro dizes
«tenho quase a certeza de
não acabar um sozinha» por isso
fumas do meu. Dá-te
gozo esse roubar
de
leves goles furtivos
dá gozo participar
do prazer que eu possa ter
contigo
(e entre nós)
dá-se agora tudo
a meias.

João Luís Barreto Guimarães

29 de jan de 2012

Foto do post... Elizabeth Taylor




Esta tarde

Esta tarde chove
sobre todos os meus mortos.

Gosto de pensar
que cada um deles está feliz
por exemplo
no coração de uma rosa.

Manuel Filipe

28 de jan de 2012

Foto do post... Marta Ferreira




O funeral

Na noite do funeral
eles abraçaram-me,
beijaram-me, mesmo esses
que habitualmente não beijam.
Apoiaram-me e perguntaram
se precisava de soporíferos,
estimulantes,
um xerez ou companhia para a noite.

Cada noite é um funeral
mas ninguém vem para me abraçar.
Ninguém pergunta como as coisas vão
se preciso de companhia para a noite,
um xerez, um soporífero.

Porque é apenas um dia como tantos
que morreu, e todos
temos que gerir isso o melhor que pudermos.

Margareta Ekström
(trad. de João Luís Barreto Guimarães)

27 de jan de 2012

Foto do post... Howard Schatz




Flores incandescentes

Como um rio, ele molha as flores do meu vestido,
e em suas águas me convida a mergulhar.
Meu corpo se aquece,
meus pensamentos se incendeiam,
ao seu doce sussurrar...
Suas carícias são ondas mornas
que embalam e fazem desabrochar
as flores molhadas do meu vestido,
que nessas águas do rio,
logo se deixam levar...

Rosa Clement

26 de jan de 2012

Foto do post... Tim Walker




Remendos...

Por tantas noites venho recolhendo,
pedaços de mim que o vento espalhou,
trapos envelhecidos que tento cerzir
do pouco que de mim, ainda restou...

Partes feitas do silêncio, outras dos ruídos,
razão de lutas e sacrifícios, que juramentei
fragmentos hoje de necessários remates,
nas pausas que sequer lembro, onde parei...

Sim, tenho aprendido a recosturar
os rasgos de mim, em danos reparáveis,
juntando um a um, no passo a passo,
quando julgo, serem todos recicláveis...

São os meus mais íntimos retalhos
que me descreve na forma que sou,
sinais e cicatrizes, riscos de minh'alma
razão do meu existir, meu cobertor

Depois, de cada pedaço remendado,
bordarei escritos, nos refeitos que gerei
farei bordas coloridas, em rendas de fino trato
e tranquila sob o manto protetor, descansarei...

Lívia Petitto

24 de jan de 2012

Foto do post... Linda Darnell




das musas que se foram

cinzas lancei,
no dia em que as musas se calaram,
e sacudindo a cor de suas vestes,
seguiram meu olhar, em direção ao norte.

conservo delas algumas lembranças:
beijos roubados na escuridão,
de lábios vagos e sobressaltados,
como mexilhões entreabertos.

feliz não digo que fiquei, mas quando
me vejo saciada em cinzas e inocência,
sinto nos ossos, nervos, carne, poros,
como se houvera nascido repleta.

Carlos Henrique Leiros

22 de jan de 2012

Foto do post... Dmitry Ageev




Eu dantes tinha olhos verdes,
só agora reparei.
Verdes, viam tudo verde...
Porque eram verdes não sei.

Sorriam àquela flor
que havia na água parada
(verde flor na verde água
da vida transfigurada).

Hoje olham e reconhecem
que há muito mais cores para ver:
cor de flor que logo esquecem,
cor de charco a apodrecer.

Maria Judite de Carvalho

21 de jan de 2012

Foto do post... Chloe Crespi




Escuro

Pergunto-me desde quando
deixou de haver futuro
nas janelas.

Janeiro dói nos olhos
como areia
e tu e eu estamos para sempre
sentados às escuras
no verão.

Rui Pires Cabral

20 de jan de 2012

Foto do post... Deborah Kerr




Você e o seu retrato

Por que tenho saudade
de você, no retrato,
ainda que o mais recente?

E por que um simples retrato,
mais que você, me comove,
se você mesma está presente?

Talvez porque o retrato,
já sem o enfeite das palavras,
tenha um ar de lembrança.

Talvez porque o retrato
(exato, embora malicioso)
revele algo de criança
(como, no fundo da água,
um coral em repouso).

Talvez pela idéia de ausência
que o seu retrato faz surgir
colocado entre nos dois

(como um ramo de hortênsia).

Talvez porque o seu retrato,
embora eu me torne oblíquo,
me olha, sempre, de frente

(amorosamente)

Talvez porque o seu retrato
mais se parece com você
do que você mesma

(ingrato).

Talvez porque, no retrato
você está imóvel.

(sem respiração...)

Talvez porque todo retrato
é uma retratação.

Cassiano Ricardo

19 de jan de 2012

Foto do post... Victor Riis




Orquídea em flor

Pra que lado sopra o vento?
Importa saber?
Sei apenas
Que sopra em meu rosto

É uma brisa,
arejado frescor
de orquídea em flor

Não posso mudar
o sentido do amor
que pulsa em meu peito
em todos os pulsos
de minhas veias
e me dão impulso
pra rasgar as teias

E eu gosto
desse gosto
de agosto
em outubro, novembro, fevereiro
o ano todo resumido
num só momento, por inteiro.

Helio Jenné

17 de jan de 2012

Foto do post... Lily Cole




Passos

Andei contemplando o silêncio
Os argumentos do meu desconhecido
Andei sentindo o vento
Fazendo do silêncio abrigo
Andei inquieta em mim
Andei vazia das palavras
Andei ausente das imagens
Além imaginar
Andei sem procurar distante
Andei no caminho do só
Andei sendo

Leslie Holanda

12 de jan de 2012

Foto do post... Jamari Lior




Abrasão

É preciso sim se expor ao tempo
Bater todas as portas ao sair
É preciso caminhar no dilúvio
Examinar as suas imagens
Como numa catedral
E ser também um santo.

É preciso aproveitar a luz do raio
E como um animal com fome
Procurar os ninhos atrás dos lírios
E com os restos do banquete
Fecundar a lama onde os pés afundam.

É preciso seguir o fragor do trovão
Adentrar ao templo onde é criado
Estudar um a um os seus tambores
Ler cada partitura dessa sinfonia
E avançar ao fim do mundo.

É preciso penetrar a escuridão
Como um ladrão dissimulado
Sorver da sua maciez a quimera
E furtar-lhe a utopia da criação.

Dario Banas

11 de jan de 2012

Foto do post... Ophelia Chong




Subo a escada devagar para sentir nos cascos a quentura da pedra.
Uma borboleta pousou no corrimão bem ao meu alcance.
Prendi-a pelas asas, mas tremeu tanto que soltei-a.
Saiu voando buleversada como se tivesse ficado cem anos presa.
Nos meus dedos, o pó prateado. Tão breve tudo.
Prendi assim a alegria, ainda há pouco foi minha,
mas se debateu tanto que abri os dedos antes que a ferisse,
não se pode forçar.
Um pouco mais que se aperte e não fica só o pó, mas a alma.

Lygia Fagundes Telles

9 de jan de 2012

Foto do post... Dino Valls




A Sombra

Trago comigo mais noite
que a minha própria sombra.
Ela que insiste sempre em ficar
mais rente: ao chão, às quatro
paredes, aos objectos dispostos
que tentam com a sua ocupação
fazer uma leitura dos dias,
ocupar um pouco mais de mim,
tentar o seu regresso para mim,
que apenas ensaio o escuro
nestes dias.

Rui Miguel Ribeiro

8 de jan de 2012

Foto do post... Suzy Parker




Quando eu fecho os olhos
que não enxergam além das cercas do meu jardim
tenho a impressão que o dia se faz noite
e um vento frio atravessa meu corpo banhado
provocando um arrepio comprido
que começa na nuca
e eu nem sei onde termina.

Muitos anos atrás eu me achava madura
mas não fazia idéia do que era estar pronta.
Agora eu estou.
Ou quase...

Lilian Dalledone

6 de jan de 2012

Foto do post... Marie Rivière




Melancolia

Meu regaço está vazio
duma eternidade por preencher
Que fazer
com esta solidão?
Que fazer
com esta saudade?
Que fazer
com este amor?
Ensina-me as lágrimas!
Explode-me o vulcão
aglutinadamente calado
como um punhal extenuado!
Devolve-me a paz
desta ferida melancolia.
Porque
onde jaz a rosa,
se ausenta a alegria.

Luiza Caetano

5 de jan de 2012

Foto do post... Penelope Cruz




arqueologia

enquanto a água escorre
fria
na pia da cozinha
descubro
súbito
o quanto de sonhos
sonhava
antes

: demasiado tarde.

Márcia Maia

3 de jan de 2012

Foto do post... Doris Eaton Travis




Envelhecer

Envelhecer é um comércio triste,
incurável e solitário
como a alopécia.
E o pior é que
nunca consegues dividir
o cordão umbilical esticado
que te liga à juventude.

De repente podes dar contigo
saltando descalço na relva
e pulando em saltos loucos
sobre as alegres nascentes da juventude,
embora realmente estejas sentado numa pedra
apoiando o queixo numa bengala curva
sentindo a osteoartrite rasgar a
marcha dos pés, velhos e pesados.

Hans Børli

2 de jan de 2012

Foto do post... Tom Chambers




quando nasci. esperava que a vida.
me trouxesse. a terra. quando nasci.
esperava que a vida. me trouxesse.
as árvores. e os pássaros. e as crianças.
quando nasci. tinha o mundo. todo.
depois dos olhos. depois dos dedos.
e não percebi. não percebi. nada.
nunca imaginei. quando nasci. que a vida.
quando nasci. já era a escuridão. a escuridão.
em que estava. quando nasci.

José Luís Peixoto

1 de jan de 2012

Foto do post... Marilyn Monroe




Sorvo o ar...
Sensação de estar viva.
Viva!
Estar!
Ser golfadas de ar.
Ser água revolta
em leito que me devolverá ao mar!
Aí fecundar,
Ser feliz... no mar!

Sorvo ar...

BlueShell