"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo de cores tão intensas... lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da voz fascinante de Petra Magoni... que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

31 de jul de 2012

Foto do post... Isabelle Adjani




Há momentos em que desejo fazer o tempo voltar e apagar toda a tristeza, mas eu tenho a sensação que, se o fizesse, também apagaria a alegria. Assim, revivo as memórias da forma como vêm, aceitando todas elas, deixando que me guiem sempre que possível. Isso acontece com mais frequência do que as pessoas percebem.

Nicholas Sparks

30 de jul de 2012

Foto do post... Yomi Kim Hunter




Explicação da Eternidade

(...)

a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.

foste eterna até ao fim.

José Luís Peixoto

29 de jul de 2012

Foto do post... Juliette Greco




Um lugar na minha alma

Agora que não nos vemos
e as nossas vidas correm pelos dias
cada vez mais longínquas,
sinto, às vezes, uma vontade enorme
de te ver uma tarde, tomar café
contigo, saber como vais…

Agora que não nos vemos
e nos perdemos aos dois,
não penses que esqueci as tuas coisas.
Guardo boas lembranças, e poemas
que te escrevi (lembras-te?); guardo
cartas e fotografias…
E um lugar
na minha alma, onde, se quiseres,
sempre, sempre podes estar.

Abel Feu
(trad. Joaquim Manuel Magalhães)

28 de jul de 2012

Foto do post... Cecile de France




Banho

Deixar a água quente
bater no dorso
abrir cada poro
dilatar

escorrer pelas costas
problemas
da nuca aos pés
entornar

até o ralo se fartar
e eu me render...

preocupações saltando
da ponta de cada seio
um suspiro e me esqueço
de tudo

o que momentos antes do sono
tra(i)r-me-á à tona
o travesseiro.

Lara Amaral

27 de jul de 2012

Foto do post... Kate Winslet




Esperança

Se eu conseguisse viver este dia,
O dia que hoje passa,
Como se fosse o último da minha vida...
Esmagando ressentimentos,
Aleijando-me de toda a podridão
Que me aniquila a graça,
Que me enegrece a alma
E enluta o coração...

Ai, se eu pudesse suster
Os passos incertos,
No caminho errado,
Do meu viver!
E ao passado não voltar,
E saber esquecer,
Esquecer e perdoar!...

Se conseguisse reter
A lágrima que teima,
Dolorida,
Soltar-se dos olhos vidrados,
E que teima
Os rostos enrugados
Dos vencidos da vida ...

Se eu pudesse evadir-me
Deste negro cárcere,
Desta dura e fria prisão
Onde, há muito, vivo
Abandonado,
Cativo,
Nos braços da solidão...

Se eu conseguisse viver
Só dentro de ti,
E tu, bem dentro de mim,
Mas sem ninguém entender
O nosso viver assim ...

Isolado, neste mundo,
Onde a amargura se esconde,
Alimentando uma esperança
Que virá, não sei bem donde...
- Do horizonte ? Do céu? Do mar?
Na chama do amor vivendo,
O coração não se cansa,
Não se cansa de esperar!...

José Maria Lopes de Araújo

26 de jul de 2012

Foto do post... Marilyn Monroe




Refaço a espera

Veio, devagar, um pássaro
sobrevoar minhas mãos
tão adiadas das tuas.
Refaço a espera.
Digo o teu nome para que voltes.

Graça Pires

25 de jul de 2012

Foto do post... Brigitte Bardot




Por vezes

Por vezes tudo se confunde. As minhas mãos
são sol dentro das tuas e há cintilações nos campos
do Outono onde se guardam nuvens e esmeraldas.
Por vezes tudo se transforma. O céu cansado
mergulha na película dos lagos e adormece
em sono leve rente aos limos e às memórias.
Há um rumor de passos de ninguém e um lamento
de aves sem canto nem asilo. Há um fim de tarde
suspenso nas ramagens das árvores do Verão.
Por vezes sou o Verão a suportar a casa.
Por vezes sou a casa e acolho a sombra.
Por vezes tudo se confunde e sou a sombra.
Por vezes.

Licínia Quitério

24 de jul de 2012

Foto do post... Romy Schneider




Café da manhã

Pôs café
na chávena
pôs leite
na chávena com café
pôs açúcar
no café com leite
e com a colher
mexeu
tomou o café com leite
e pôs a chávena no pires
sem me dar uma palavra
acendeu
um cigarro
fez rodinhas
com o fumo
pôs a cinza
no cinzeiro
sem me dar uma palavra
sem olhar para mim
levantou-se
pôs
o chapéu na cabeça
vestiu
o impermeável
porque chovia
e saiu
debaixo de chuva
sem uma palavra
sem me olhar
quanto a mim, meti
a cabeça entre as mãos
e chorei.

Jacques Prévert

23 de jul de 2012

Foto do post... Gina Lollobrigida




Pergunta-me

Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer

Mia Couto

22 de jul de 2012

Foto do post... (desconheço)




Cartografia

Tua pele, mapa cego onde me guio
E onde me perco em perigosos atalhos
Até me encontrar em um outro arrepio
E me perder novamente em atos falhos

No trajeto, entre o temor e o frio
Operando o amoroso trabalho
Do seu corpo faço o delta do meu rio
Desaguando em um oceano de orvalho

Tua pele, teu corpo mapa-mundi
Desbravado por mim - peregrino
Com a coragem que o desejo infunde
Fez do cartógrafo um mero menino
Sonhando com um mar que afunde
Em seu bojo, o próprio destino

Cefas Carvalho

21 de jul de 2012

Foto do post... Lucille Ball




Musa

Aqui me sentei quieta
Com as mãos sobre os joelhos
Quieta muda secreta
Passiva como os espelhos

Musa ensina-me o canto
Imanente e latente
Eu quero ouvir devagar
O teu subito falar
Que me foge de repente

Sophia de Mello Breyner Andresen

20 de jul de 2012

Foto do post...Dorota Ewentualnie




Medo

Há vidas
e há vidas
havidas
ávidas.

Não se chegue
muito perto;
se chegar
fique em silêncio.

Posso apenas
prender firmemente
meus olhos desordenados
aos seus olhos
(há neles um conforto,
um nível
e uma infinitude
só vistos
nos oceanos
serenos).

Nada mais posso.
Se eu for além,
ou vier do além
corro o risco de lhe invadir
rompendo seus vínculos.

É que o medo que me cerca
vem de dentro de mim.

Oswaldo Antônio Begiato

19 de jul de 2012

Foto do post... Lillian Gish




A mãe era um estrago de braba, mas quando eu lembro dela me castigando com o safanão do pente na cabeça e me fazendo dois molhos de cachinhos pra eu ir bonita pra escola, me dá um engasgo, uma saudade sem remédio, uma vontade de ser pobre igual antigamente, só pra escutar ela falar: Já ta ficando mocinha, umas roupinhas melhores... e o pai: moça bonita não precisa disso não...

Eh, meu Deus, quanto jeito que tem de ter amor!

Adélia Prado

18 de jul de 2012

Foto do post... Rita Hayworth




Sonha-me!

Sonha-me…
Mas sonha-me como sou!
Não me queiras perfeita por que não me terás…
Sonha-me…e que ao despertar
Teu sorriso possa iluminar a noite da minha insegurança…
Sonha-me assim…
Assim como me tens quando me entrego…
Assim como me vês quando te cativo….
Assim…quando me tomas e me aconchegas e
Me limpas as lágrimas como se eu fora uma criança….
Sonha-me…
Mas sonha-me como sou!
Sonha-me assim…

BlueShell

17 de jul de 2012

Foto do post... Tilda Swinton




(...)

Aceito-me como sou.

A escuridão fecha-se como um muro
e não há portas de entrada ou de saída.

Quem pensa em mim
agora?

Josep M. Rodriguez

16 de jul de 2012

Foto do post... (desconheço)




Hoje chove muito, muito,
dir-se-ia que estão a lavar o mundo.
o meu vizinho do lado vê a chuva
e pensa em escrever uma carta de amor
uma carta à mulher com quem vive
e lhe faz a comida e lava a roupa e faz amor com ele
e se parece com a sua sombra
o meu vizinho nunca diz palavras de amor à mulher
entra em casa pela janela e não pela porta
por uma porta entra-se em muitos sítios
no trabalho, no quartel, na prisão,
em todos os edifícios do mundo
mas não no mundo
nem numa mulher
nem na alma
quer dizer
nessa caixa ou nave ou chuva que chamamos assim
como hoje
que chove muito
e me custa escrever a palavra amor
porque o amor é uma coisa e a palavra amor é outra coisa
e só a alma sabe onde as duas se encontram
e quando
e como
mas que pode a alma explicar
por isso o meu vizinho tem tempestades na boca
palavras que naufragam
palavras que não sabem que há sol porque nascem e morrem na mesma noite em que ele amou
e deixam cartas no pensamento que ele nunca escreverá
como o silêncio que existe entre duas rosas
ou como eu
que escrevo palavras para regressar
ao meu vizinho que vê a chuva
e à chuva
ao meu coração desterrado

Juan Gelman

14 de jul de 2012

Foto do post... Juan Gatti




Vazio redondo

Há um vazio redondo
que fere o silêncio e os gritos
como escarpas estilhaçadas ...

Há um abismo redondo
na poeira dos meus passos
um precipício de mêdo
tecido na rotina dos dias...

Há um esgar de ausência
em cada noite encostado
como se esperasse
um pássaro por amanhecer...

Um cansaço de acuçenas
amarelecidas pelo tempo
sangrando as esperas na arena,

as Primaveras, subitamente feridas,
se extinguem num vazio redondo
como um grito contra o muro.

Luiza Caetano

13 de jul de 2012

Foto do post... LJ Gray




Ao lado da janela,
desconhecida dormes.
Com o sono
-ponte de vidro-
e o teu pé nu.
E o ar que te respira
deixa de esperar
o azul da luz do dia.

João Camilo

12 de jul de 2012

Foto do post... Edith Maybin




Domador de Ausências

A haver mais um dia,
não, não é hoje!
- O vento sopra forte
e chove em temporal, lá fora,
e o gelo cansado
repousa na estrada.
A haver mais um dia,
tem a noite que aguardar por mim.

Além, um pouco mais além
por detrás dessa muralha,
de pedra em pedra amontoada,
existem ventos confusos
que sopram sul sopram norte sopram este
sopram o quanto do quanto a letra demora,
sopram reflexos dum pouco de mais de nada
e a haver repouso para o dia dia,
decerto não é nestes que correm
rodopiam ou rasgam ou fogem!
A haver mais um dia
não tem que necessariamente ser assim!

Uma coisa é ser vivo,
outra coisa ser forte;
Outra mais diferente ainda, é dizer
que o que resgato dentro
deste pedaço de vida, pode ter fim,
porventura, à passagem deste dia.
Por mim, não!

Se bater nessa porta antiga,
por dois toques para me chamar, diz-lhe
à noite, que espere,
que aguarde mais um dia,
que agora não estou!

Leonardo B.

11 de jul de 2012

Foto do post... Marilyn Monroe




Não sei como chegar à tua casa perdida,
a tua casa emaranhada nas antenas
como um trapo miserável, esquecido.

Não sei como entrar no teu bairro na tua vida,
a tua vida de puzzles e de palmeiras,
o teu bairro de lata e de armaduras.

Não sei como ir da minha vida à tua rua,
a tua rua cheia de perguntas,
a minha vida estranha sem respostas.
Mas chegarei. Porque tu me chamas.

Belén Sánchez

10 de jul de 2012

Foto do post... Samuel Bradley




Esta casa
Gosto dela assim: ainda vibrante dos passos
que a deixaram a sós comigo
desobrigada
de abrigar seus moradores
Comigo é
diferente:
não me limito a usá-la
a habitá-la:
namoro com ela
Comigo
abandona-se a seus mais íntimos rumores
e cheiros
e aliviada do dever de ser útil
em silêncio
canta

Teresa Rita Lopes

9 de jul de 2012

Foto do post... Christopher Reeve & Jane Seymour




Os primeiros encontros

Cada momento passado juntos
Era uma celebração, uma Epifania,
Nós os dois sozinhos no mundo.
Tu, tão audaz, mais leve que uma asa,
Descias numa vertigem a escada
A dois e dois, arrastando-me
Através de húmidos lilases, aos teus domínios
Do outro lado, passando o espelho.

Pela noite concedias-me o favor,
Abriam-se as portas do altar
E a nossa nudez iluminava o escuro
À medida que genufletia. E ao acordar
Eu diria “Abençoada sejas!”
Sabendo como pretenciosa era a benção:
Dormias, os lilases tombavam da mesa
Para tocar-te as pálpebras num universo de azul,
E tu recebias esse sinal sobre as pálpebras
Imóveis, e imóvel estava a tua mão quente.

Rios palpitantes por dentro do cristal,
A montanha assomando na bruma, mar enfurecido,
E tu com a bola de cristal nas mãos,
Sentada num trono enquanto dormes,
— Deus do céu! — tu pertences-me.
Acordas para transfigurar
As palavras de todos os dias,
E o teu discorrer transbordante
De poder revela na palavra “tu”
o seu novo sentido: significa “rei”.
Simples objectos transfigurados,
Tudo — a bacia, o jarro —, tudo
Uma vez de sentinela entre nós
Se torna límpido, laminar e firme.

Íamos, sem saber para onde,
Perseguidos por miragens de cidades
Derrotadas construídas no milagre,
Hortelã pimenta aos nossos pés,
As aves acompanhando-nos o voo,
E no rio os peixes á procura da nascente;
O céu, a nós se abrindo.
Porque o destino seguia-nos o rastro
Como um louco com uma navalha na mão.

Arsesii Tarkovskii

8 de jul de 2012

Foto do post... Marilyn Monroe




Latíbulo...

E fez-se escuro, tudo o que era luz...
Derramou-se sangue na navalha da vida
Mancharam-se de negro corpos quase defuntos
Pálidos, entristecidos, em permanentes convulsões
Quem serão, os que passam em silêncio…?
Bocas secas, gretadas pela solidão
Num mundo cego por si próprio!

Cavei um latíbulo dentro de mim…
Esconso, onde caibo inteira
Um jazigo de sentires… coberto por raízes arrevesadas
É bom este recanto, ainda assim…
Onde me escondo das sombras dos dias que passam
Das gentes que riem, desafortunadas sem o saberem
Gosto deste sitio, onde guardo segredos que só revelo a mim…

- Sabes? Aqui, ainda voam pássaros de asas azuis...!

Cecília Vilas Boas

7 de jul de 2012

Foto do post... Jenniholma




Não consigo ver o teu rosto.
Quando penso em ti,
São as tuas mãos que vejo.
As tuas mãos
Cosendo,
Segurando num livro,
Descansando por um momento à soleira da janela,
Os meus olhos conservam sempre a visão das tuas mãos,
Mas o meu coração guarda o som da tua voz,
E o suave brilho que é a tua alma.

Amy Lowell

6 de jul de 2012

Foto do post... Ranya Mordanova




Ainda estranho o corpo que visto
de manhã. Procuro outros
para sentir.

O silêncio arde, lento.

Estendo uma mão que toca
apenas em mim.

O tempo termina. Arrasta-me.
Vou-me evadindo para longe,
cinza inútil voando da fogueira.

João Borges

5 de jul de 2012

Foto do post... Guinevere van Seenus



os olhos ganham a intensidade das rugas
todas a sombras se juntam como
linhas de uma folha

é neste tempo de sílabas murchas
que nos olhos param imagens

o outro lado dos olhos são pedacinhos
de papel que rasguei num domingo

Maria Sousa

4 de jul de 2012

Foto do post... Ranya Mordanova



Guarda-me adormecida para sempre no teu peito
ou deixa-me voar uma vez mais
sobre esta terra de ninguém
onde morro por qualquer coisa que me fale de ti.
Há noites assim em que o silêncio se transforma
ao de leve numa lâmina que minuciosamente
rasga o linho onde ficou esquecido
o corpo que habitamos
em provisórias madrugadas felizes...
Depois é só abrir os braços e acreditar
que ainda faltam muitas horas para a partida
e que à-toa pelos corredores ainda escorre
uma razão primeira a trazer-me de volta.
E eu adormecida para sempre no teu peito.
E eu acorrentada para sempre no teu peito.
E de novo entre nós aquele choro de quem
não teve tempo de preparar a despedida
com as palavras certas;
porque as palavras certas
estavam todas em histórias erradas
que outros escreveram em lugares nublados
que nem vale a pena tentar recompor.
Muito ao longe uma voz desgarrada
estabelece o fim do verão...
E eu adormecida para sempre no teu peito
e eu acorrentada para sempre no teu peito...

Alice Vieira