"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo de cores tão intensas... lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da voz fascinante de Petra Magoni... que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

31 de ago de 2012

Foto do post... Moira Shearer & Robert Helpmann




August Moon

Enquanto o verão não chega,
aconchega-te na fogueira do meu colo.
Vamos dançar luas de Agosto
pelas divisões da casa, pega na solidão
e atira-a janela fora contra o ar pesado
das ruas desertas, nubladas, chuvosas
deste nosso misterioso e insuportável
calendário. Aumenta o volume
e dança, põe a sombra dos objectos a dançar,
mete-te dentro da sombra dos objectos
e dança, dança sobre a luz artificial
que dá graça a todos os insectos
pouco mais do que dançantes.
Eu tenho luas de Agosto dentro de mim
no inverno jacente, não te quero
de sorrisos mortos e mãos vazias.
Mesmo gelado, de ossos quebrados,
exausto, eu quero-te a dançar com os braços
envoltos na fogueira do meu colo.

Juraan Vink

30 de ago de 2012

Foto do post... Whoopi Goldberg




Visão

Vi-te passar, longe de mim, distante,
Como uma estátua de ébano ambulante
Ias de luto, doce toutinegra,
E o teu aspecto pesaroso e triste
Prendeu minha alma, sedutora negra;
Depois, cativa de invisível laço,
(O teu encanto, a que ninguém resiste)
Foi-te seguindo o pequenino passo
Até que o vulto gracioso e lindo
Desapareceu longe de mim distante,
Como uma estátua de ébano ambulante.

Caetano Costa Alegre

29 de ago de 2012

Foto do post... Année Olofsson




Tempo

o tempo andou riscando meu rosto
com uma navalha fina

sem raiva nem rancor
o tempo riscou meu rosto
com calma

(eu parei de lutar contra o tempo
ando exercendo instantes
acho que ganhei presença)

Viviane Mosé

28 de ago de 2012

Foto do post... Joan Collins




Paz

Hoje
quero
deitar a minha cabeça
no teu colo
peço
que a afagues.
Ensina-me
uma oração
que cure as dores da alma
e dá-me
somente um pouco
da tua paz
que não a quero toda.

Maria José Meireles

27 de ago de 2012

Foto do post... Moira Shearer


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Dança

Porque teus passos festejam
a graça de serem rios
onde o teu corpo liberta
os corpos que vai lembrando
de neles pousar o tempo,
de neles romper o sol
da tua carne cantando;

e há mil crianças possíveis
sob as tuas mãos pensadas
pelos anjos da ternura;
porque vais perto da fonte
que desce não sei que prados
entre o silêncio e o olhar,

te cercam todos os mundos
tudo o que vive e procura
um centro para cantar!

Vítor Matos e Sá

26 de ago de 2012

Foto do post... Romy Schneider




Porque tinha suas ausências.
O rosto se perdia numa tristeza impessoal e sem rugas.
Uma tristeza mais antiga que o seu espírito.
Os olhos paravam vazios; diria mesmo um pouco ásperos.
A pessoa que estivesse ao seu lado sofria e nada podia fazer. Só esperar.
Pois ela estava entregue a alguma coisa misteriosa, infante.
Ninguém ousaria tocá-la nesse momento.
Esperava-se um pouco grave, de coração apertado, velando-a.
Nada se poderia fazer por ela senão desejar que o perigo parasse.
Até que num movimento sem pressa, quase um suspiro,
ela acordava como um cabrito recém-nascido
se ergue sobre as pernas.
Voltara de seu repouso na tristeza.

Clarice Lispector

25 de ago de 2012

Foto do post... Mia Wasikowska




Mulher ao Espelho

Hoje que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.

Já fui loura, já fui morena,
já fui Margarida e Beatriz.
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.

Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?

Por fora, serei como queira
a moda, que me vai matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.

Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.

Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.

Cecília Meireles

24 de ago de 2012

Foto do post... Brigitte Bardot




Sou filha do vento...
Doce na aragem da tarde fresca... suave...
Dedos leves acariciando o rosto que se embala na rede.
Porém... rude e selvagem...
Vendaval que açoita as matas nas madrugadas...
Espanta pássaros... desgalha árvores.
De frio crispo faces...
Provoco lágrimas!
Inconstante... imprevisível... determinada...
Alma sem ninho e sem parada.
Livre e apaixonada!
Amo a liberdade... e pago o seu preço...
Que é viver errante... desprovida de agasalho.
Não tenho amigos... companheiro... ou fixo endereço
Só laços rotos de saudade!
Vivo distante... ausente... peregrina em eterna viagem.
Pouso raro para um beijo... breve homenagem.
Presentes... não deixo...
Só levo adeus na bagagem!

Instável... mutante... insólita!
Brisa solitária... que... sem rumo... vaga.
Não se prende a nada!

Márcia.Dom

23 de ago de 2012

Foto do post... Ava Gardner




Lúbrica

Mandaste-me dizer,
No teu bilhete ardente,
Que hás-de por mim morrer,
Morrer muito contente.

Lançaste no papel
As mais lascivas frases;
A carta era um painel
De cenas de rapazes!

Ó cálida mulher,
Teus dedos delicados
Traçaram do prazer
Os quadros depravados!

Contudo, um teu olhar
É muito mais fogoso,
Que a febre epistolar
Do teu bilhete ansioso:

Do teu rostinho oval
Os olhos tão nefandos
Traduzem menos mal
Os vícios execrandos.

Teus olhos sensuais
Libidinosa Marta,
Teus olhos dizem mais
Que a tua própria carta.

As grandes comoções
Tu, neles, sempre espelhas;
São lúbricas paixões
As vívidas centelhas...

Teus olhos imorais,
Mulher, que me dissecas,
Teus olhos dizem mais,
Que muitas bibliotecas!

Cesário Verde

22 de ago de 2012

Foto do post... Drew Barrymore




Revés

vou pegar um vôo
antes que seja tarde demais
eu vou, não volto
nem por céu, nem no cais

vou até os astros
antes que entardeça horizonte
eu vou, sem rastro
bem de fronte, bem na fonte

vou sem hora, sem demora
aventurar em outros ares
que aqui não mais posso ficar
no ansiar por novos mares

vou sem rota, sem derrota
procurar outra parte de mim
que não sei onde perdi
no começo ou perto do fim

Cris de Souza & Cáh Morandi

21 de ago de 2012

Foto do post... Alyson Hannigan




Três coisas

Não consigo entender
O tempo
A morte
Teu olhar

O tempo é muito comprido
A morte não tem sentido
Teu olhar me põe perdido

Não consigo medir
O tempo
A morte
Teu olhar

O tempo, quando é que cessa?
A morte, quando começa?
Teu olhar, quando se expressa?

Muito medo tenho
Do tempo
Da morte
De teu olhar

O tempo levanta o muro.

A morte será o escuro?

Em teu olhar me procuro.

Paulo Mendes Campos

20 de ago de 2012

Foto do post... (desconheço)




De todos as cores, vermelho.
De todas as flores, gérbera.
Reza toda noite antes de dormir.
E nunca esquece de agradecer pelas bonitezas do dia.
Agradece também pelo que é feio, mas engrandece.
Acredita que o sofrimento enobrece, mas nem sempre,
porque prefere o caminho mais fácil.
Põe o pé direito pra fora da cama primeiro (nem sempre).
Herdou algumas supertições, além do riso fácil e do olhar ágil.
Está sempre apressada e atrasada.
Fala mais com as mãos, que com a boca.
Pensa mais rápido que fala e quase não fala o que pensa.
Aprendeu a ser comedida.
Tropeçou muitas vezes no caminho.
Já se apaixonou pra sempre.
Já morreu de amor.
Não acredita mais em príncipe encantado,
mas torce pra que lhe provem o contrário todo-santo-dia.

Briza Mulatinho

19 de ago de 2012

Foto do post... Lily Cole




Eu estava sempre de partida, sempre
prestes a levantar-me e a seguir, sempre
a caminho, sem saber para onde.
Para outro sítio. Aqui é que não.
Aqui nunca nada me bastava.

Teria de ser melhor lá, para onde
me dirigia. Sem saber como, nem porquê.
A cúpula debaixo da qual me encolhia
seria erguida, e eu haveria de ser lançado
para dentro da minha verdadeira vida.
Nela encontraria os que estava destinado a encontrar.

Receber-me-iam em festa,
com flautas e castanholas,
e seria levantado no ar. Que isto
pudessse ser uma espécie de morte
não me ocorreu.

Só sei que
alguma coisa me reteve,
uma dúvida, uma dívida, um rosto que não pude
abandonar. Quando a porta
se abriu, não entrei.

Jean Nordhaus

18 de ago de 2012

Foto do post... Haleh Bryan




Há uma luz dentro de mim

Seja de dia ou de noite
trago sempre dentro de mim
uma luz.
No meio do ruído e da desordem
trago silêncio.
Trago
sempre luz e silêncio.

Anna Swir

17 de ago de 2012

Foto do post... Dmitry Bocharov



Os monstros

Nos pesadelos
os monstros às vezes temem que os olhemos de frente
que possamos apagar-lhes a sombra
ou acordá-los a meio da tarde
abrindo as portada dos seus refúgios
deixando a luz avassaladora a cobrir-lhes o corpo
a queimar-lhes as pupilas remanescentes
como se fôssemos nós
os monstros
deles.

José Carlos Barros

16 de ago de 2012

Foto do post... Jeísa Chiminazzo




Me enfrento

Do fundo da minha covardia me ergo e enfrento
da convicção da minha teimosia arranco a determinação
e do orgulho a vontade de continuar

Da vergonha o medo de desistir
e da incerteza a vontade de descobrir
da timidez faço a capacidade de desenrasque
e da falta de eloquência um silêncio inteligente

Da tristeza os sorrisos
da solidão a alegria de viver cada momento

Do fraco faço forte
e da fraqueza aparência de grande força
só pelo medo de sofrer, que é tão grande em mim.

Carla Ribeiro

15 de ago de 2012

Foto do post... Doris Eaton Travis




Encontro-me comigo todos e cada dia
Nunca me deixo só a mim mesma
Não fico nem um segundo longe da minha vista
Por isso não consigo simplesmente entender
O que pode ter acontecido
A este rosto
Que me responde olhando-me fixamente
De velhas fotografias

Olga Ivanova

14 de ago de 2012

Foto do post... Sharon Tate




Uma canção

Por detrás dos meus olhos há águas
Tenho de as chorar todas.

Tenho sempre um desejo de me elevar voando,
E de partir com as aves migratórias.

Respirar cores com os ventos
Nos grandes ares.

Oh, como estou triste...
O rosto da lua bem o sabe.

Por isso, à minha volta há muita devoção aveludada
E madrugada a aproximar-se.

Quando as minhas asas se quebraram
Contra o teu coração de pedra,

Caíram os melros, como rosas de luto,
Dos altos arbustos azuis.

Todo o chilreio reprimido
Quer jubilar de novo

E eu tenho um desejo de me elevar voando,
E de partir com as aves migratórias.

Else Lasker-Schüler

13 de ago de 2012

Foto do post... Marilyn Monroe




Sonhos de mar...

Ouço o grito alucinante das gaivotas
sinto a tua força, mar
deleito-me em teu ondular
sou parte de ti
amo
perco-me
em teus sussurros
que são meus… Mar.

Cecília Vilas Boas

12 de ago de 2012

Foto do post... Marilyn Monroe




Investigando...

Onde estará
meu antigo
vestido florido
e os meus chinelos
de dedos?
A minha alegria
quem escondeu ?
Alguém encontrou
um sorriso perdido?
É meu!

Rossana Masiero

11 de ago de 2012

Foto do post... Catherine Deneuve




Balada de sempre

Espero a tua vinda
a tua vinda,
em dia de lua cheia.

Debruço-me sobre a noite
a ver a lua a crescer, a crescer...

Espero o momento da chegada
com os cansaços e os ardores de todas as chegadas...

Rasgarás nuvens de ruas densas,
Alagarás vielas de bêbados transformadores.
Saltarás ribeiros, mares, relevos...
- A tua alma não morre
aos medos e às sombras! -

Mas...
Enquanto deixo a janela aberta
para entrares,
o mar,
aí além,
sempre duvidoso,
desenha interrogações na areia molhada...

Fernando Namora

10 de ago de 2012

Foto do post... Sad Woman




As horas

As horas cismam no ar parado:
- Passado.

As horas bailam no ar fremente:
- Presente.

As horas sonham no ar obscuro:
- Futuro.

Da Costa e Silva

9 de ago de 2012

Foto do post... Sylvia Sidney




Motivo da rosa

A rosa, bela Infanta das sete saias
e cuja estirpe não lhe rouba, entanto,
o ar de menina, o recatado encanto
da mais humilde de suas aias,
a rosa, essa presença feminina,
que é toda feita de perfume e alma,
que tanto excita como tanto acalma,
a rosa... é como estar junto da gente
um corpo cuja posse se demora
- brutal que o tenhas nesta mesma hora,
em sua virgindade inexperiente...
rosa, ó fiel promessa de ventura
em flor... rosa paciente, ardente, pura!

Mário Quintana

8 de ago de 2012

Foto do post... Lauren Bacall




Entre palavras

de tudo o que se pode guardar
guarde o silêncio
objetos são perecíveis
palavras... dispensáveis
o silêncio é enfático e duradouro
ainda que por alguns instantes

a reflexão é do silêncio
o ancoradouro
fere com estacas pontiagudas
a alma das palavras
serpenteia como lâminas cortantes

o silêncio é grilo falante
quando se colhe sentimentos
filho da verborragia
corta o ar como uma cotovia

nos versos da poesia
o silêncio é chama intrépida
travestido de palavras em seda fria
som estrepitoso
ecoa solitário
nas cavernas da mente

entre palavras e palavras
a pausa colossal do silêncio
é brado veemente
lacuna onde se deita
o que não é dito
ou dito de modo surpreendente
no suspiro abafado
no canto dos olhos
no sorriso embotado

brada o silêncio
o que os pulmões condensam
revela o que os seres
mais sensíveis pensam
faz imenso barulho em mim
é começo e é o fim

Úrsula Avner

7 de ago de 2012

Foto do post... Grace Kelly




É melancolia

Te chamarás silêncio doravante.
E o lugar que ocupas no ar
se chamará melancolia.

Escreverei no vinho rubro um nome:
o teu nome que esteve junto a minha'alma
sorrindo entre violetas.

Agora olho ao longe, absorto,
esta mão que andou por teu rosto,
que sonhou junto a ti.

Esta mão distante, de outro mundo,
que conheceu uma rosa e outra rosa,
e o tépido, o lento nácar.

Um dia irei buscar-me, irei buscar
meu fantasma sedento entre os pinheiros
e a palavra amor.

Te chamarás silêncio doravante.
Eu o escrevo com a mão que aquele dia
ia contigo entre os pinheiros.

Eduardo Carranza

6 de ago de 2012

Foto do post... Jane Seymour




Ausente

Os que se vão, vão depressa.
Ontem, ainda, sorria na espreguiçadeira.
Ontem dizia adeus, ainda, da janela.
Ontem, vestia, ainda, o vestido tão leve cor-de-rosa.

Os que se vão, vão depressa.
Seus olhos grandes e pretos há pouco brilhavam.
Sua voz doce e firme faz pouco ainda falava,
Suas mãos morenas tinham gestos de bênçãos.

No entanto, hoje, na festa, ela não estava.
Nem um vestígio dela, sequer.
Decerto sua lembrança nem chegou, como os convidados
Alguns, quase todos, indiferentes e desconhecidos.

Os que se vão, vão depressa.
Mais depressa que os pássaros que passam no céu.
Mais depressa que o próprio tempo,
Mais depressa que a bondade dos homens,
Mais depressa que os trens correndo nas noites escuras,
Mais depressa que a estrela fugitiva
Que mal faz um traço no céu.

Os que se vão, vão depressa.
Só no coração do poeta, que é diferente dos outros corações,
Só no coração sempre ferido do poeta
É que não vão depressa os que se vão.

Ontem ainda sorria na espreguiçadeira,
E o seu coração era grande e infeliz.
Hoje, na festa, ela não estava, nem a sua lembrança.
Vão depressa, tão depressa os que se vão...

Augusto Frederico Schmidt

5 de ago de 2012

Foto do post... Mary Astor




De passagem

Não fiques triste: já vem vindo a noite
quando veremos sobre a terra esbranquiçada
a Lua fria, como que a rir-se por dentro,
e então descansaremos de mãos dadas.

Não fiques triste: já vem vindo o tempo
quando teremos sossego. Nossas cruzinhas estão
erguidas juntas na margem clara da vida,
chove e neva,
e os ventos vem e vão.

Hermann Hesse

4 de ago de 2012

Foto do post... (desconheço)




Há sol na rua
Gosto do sol mas não da rua
Portanto fico em casa
Esperando que o mundo venha
Com suas torres douradas
E suas cascatas brancas
Com suas vozes de lágrimas
E as canções das pessoas alegres
Ou pagas para cantar
E à noitinha chega um momento
Em que a rua se torna
outra coisa
E desaparece sob a plumagem
De noite repleta de talvez
E dos sonhos dos que estão mortos
Então desço à rua
Que se estende até a aurora
Bem perto, uma fumaça se espreguiça
E caminho em meio à água seca
Água áspera da noite fresca
O sol não demora a voltar.

Boris Vian
(trad. Ruy Proença)

3 de ago de 2012

Foto do post... Carrie Radison




Chamamento

Da margem do sonho
e do outro lado do mar
alguém me estremece
sem me alcançar.

Um bafo de desejo
chega, vago, até mim.
Perfume delido
de impossível jasmim.

É ele que me sonha?
Sou eu a sonhar?
Sabê-lo seria
desfazer, no vento,
tranças de luar.

Nuvens,
barcos,
espumas
desmancham-se na noite.

E a vida lateja, longe,
num outro lugar.

Luísa Dacosta

2 de ago de 2012

Foto do post... Anna May Wong




Soneto da Busca

Eu quase te busquei entre os bambus
para o encontro campestre de janeiro
porém, arisca que és, logo supus
que há muito já compunhas fevereiro.

Dispersei-me na curva como a luz
do sol que agora estanca-se no outeiro
e assim também, meu sonho se reduz
de encontro ao obstáculo primeiro.

Avançada no tempo, te perdeste
sobre o verde capim, atrás do arbusto
que nasceu para esconder de mim teu busto.

Avançada no tempo, te esqueceste
como esqueço o caminho onde não vou
e a face que na rua não passou.

Carlos Pena Filho

1 de ago de 2012

Foto do post... Elizabeth Taylor




As coisas semelhantes

Um dia tiveste a minha idade e tantas ou mais coisas
partidas do que eu. Um coração, o fecho de um colar de pérolas,
aqueles olhos vazios como o aquário verde no topo da estante,
demasiadas palavras armadas em metáforas. Coisas semelhantes
que mais tarde alguém tentou reparar. Tempo, amor e morte – sobretudo
os seus lugares vazios.
E uma pele capaz de os alojar.

Inês Fonseca Santos